Refinarias dos EUA enfrentam aumento repentino na importação de petróleo venezuelano, excesso de oferta pressiona preços e deixa volumes sem comprador
A rápida expansão das exportações de petróleo venezuelano acumulou cargas na Costa do Golfo, forçando ajustes de preço e capacidade em refinarias americanas e mercados internacionais
Refinarias da Costa do Golfo dos Estados Unidos encontram dificuldade para absorver um aumento súbito nos embarques de petróleo venezuelano após o acordo de fornecimento de US$ 2 bilhões firmado entre Caracas e Washington no mês passado.
O excesso de oferta tem pressionado cotações e deixado parte dos volumes sem comprador, enquanto a demanda americana segue fraca, complicando a intenção de redirecionar grande parte do produto ao mercado dos EUA.
Licenças recentes a tradings e à Chevron ampliaram exportações, mas várias cargas ainda não têm destino certo, e refinarias dizem que será preciso tempo e ajustes para processar graus mais pesados, conforme informação divulgada pelo g1.
Capacidade das refinarias e obstáculos operacionais
Operadores afirmam que muitas refinarias americanas não estão prontas para processar o maior volume de graus pesados da Venezuela, e precisam fazer ajustes para voltar a operar em máxima capacidade. O presidente-executivo da Phillips 66, Mark Lashier, afirmou que a empresa pode processar cerca de 250 mil barris por dia desse petróleo, desde que os preços sejam competitivos.
O presidente-executivo da Chevron, Mike Wirth, disse que a rede de refino da companhia consegue processar até 150 mil barris diários dos tipos pesados da Venezuela, o que indica necessidade de armazenar ou revender o excedente.
Um operador resumiu a situação, “Estamos todos enfrentando esse problema, em que há mais para vender e não há compradores suficientes”, segundo fontes do mercado.
Quem exporta e os números mais recentes
As exportações totais de petróleo venezuelano para os Estados Unidos quase triplicaram, chegando a 284 mil barris por dia, segundo dados baseados no movimento de navios.
Antes das sanções impostas por Washington em 2019, os EUA importavam cerca de 500 mil barris diários do país, volume que caiu a zero em meados de 2025, após o presidente Trump revogar todas as licenças de comercialização e transporte.
A Chevron elevou seus embarques para 220 mil barris por dia em janeiro, ante 99 mil em dezembro. Vitol e Trafigura exportaram cerca de 12 milhões de barris, o equivalente a aproximadamente 392 mil barris por dia, principalmente para terminais de armazenamento no Caribe.
No total, as exportações de petróleo da Venezuela saltaram para cerca de 800 mil barris por dia no mês passado, ante 498 mil em dezembro, segundo monitoramento de navios.
Pressão nos preços e realinhamento de mercados
Cargas de petróleo pesado venezuelano para entrega na Costa do Golfo estão sendo oferecidas com desconto de cerca de US$ 9,50 por barril em relação ao Brent, ante descontos entre US$ 6 e US$ 7,50 registrados em meados de janeiro, segundo operadores consultados.
Algumas refinarias reclamam que, apesar da queda, os preços continuam altos frente a graus pesados concorrentes do Canadá. Enquanto isso, a China, que era o principal destino do produto, deixou de receber cargas desde a captura de Nicolás Maduro no início de janeiro, e a estatal PetroChina orientou comerciantes a suspenderem novas negociações.
Autoridades americanas disseram que, de agora em diante, os EUA passariam a controlar as vendas de petróleo da Venezuela por tempo indeterminado, e buscavam alternativas, entre elas a Índia, onde há sinalizações de interesse, como a menção de que a Reliance Industries estuda importar petróleo da Venezuela.
Perspectivas e riscos para o mercado
Analistas e operadores dizem que levará tempo até que as refinarias americanas ajustem unidades para processar novamente grandes volumes de graus pesados. Há riscos de formação de estoques no Caribe e necessidade de revenda a preços mais baixos.
A Chevron produz atualmente cerca de 250 mil barris por dia na Venezuela e vê potencial para aumentar esse volume em até 50% nos próximos 18 a 24 meses, caso o governo americano autorize a expansão das operações, segundo fontes do mercado.
O cenário combina excesso de oferta, limitações operacionais e incerteza sobre compradores internacionais, deixando preços e fluxos vulneráveis a novas mudanças políticas e logísticas.