Refinarias dos EUA lidam com aumento súbito do petróleo venezuelano, Trump busca redirecionar volumes, Chevron, Vitol e Trafigura enfrentam excesso e queda de preços
A entrada de milhões de barris de petróleo venezuelano tem pressionado preços, deixado cargas sem comprador e exigido ajustes nas refinarias da Costa do Golfo
As refinarias da Costa do Golfo dos Estados Unidos estão tendo dificuldade para absorver um aumento rápido de cargas de petróleo venezuelano, após um acordo de fornecimento e autorizações de trading, o que tem pressionado preços e deixado parte dos volumes sem comprador.
O excesso de oferta chega em um momento de demanda doméstica fraca nos EUA, o que complica o plano do presidente Donald Trump de direcionar grande parte do produto venezuelano ao mercado americano.
As informações e números a seguir foram compilados a partir da apuração do g1, conforme informação divulgada pelo g1
Excesso de oferta e impacto nos preços
A rápida elevação das exportações venezuelanas tem criado um excedente no mercado, especialmente na Costa do Golfo, e pressionado os preços do petróleo venezuelano.
Atualmente, cargas de petróleo pesado venezuelano para entrega na Costa do Golfo estão sendo oferecidas com desconto de cerca de US$ 9,50 por barril em relação ao Brent, ante descontos entre US$ 6 e US$ 7,50 registrados em meados de janeiro.
No mês passado, as exportações totais de petróleo venezuelano para os Estados Unidos quase triplicaram, chegando a 284 mil barris por dia, segundo dados baseados no movimento de navios.
Antes das sanções impostas por Washington em 2019, os EUA importavam cerca de 500 mil barris diários do país, Esse volume caiu a zero em meados de 2025.
Um operador do mercado resumiu a dificuldade encontrada, dizendo, “Estamos todos enfrentando esse problema, em que há mais para vender e não há compradores suficientes”.
Capacidade de refino e limitação operacional
Algumas refinarias americanas ainda precisam de ajustes para processar graus mais pesados do óleo venezuelano, o que limita a velocidade com que o novo fluxo pode ser absorvido.
O presidente-executivo da Phillips 66, Mark Lashier, afirmou que a empresa pode processar cerca de 250 mil barris por dia desse petróleo, desde que os preços sejam competitivos.
A Chevron, cuja licença permite exportar petróleo venezuelano apenas para os Estados Unidos, elevou seus embarques para 220 mil barris por dia em janeiro, ante 99 mil em dezembro, e seu CEO, Mike Wirth, afirmou que “a rede de refino da Chevron consegue processar até 150 mil barris diários dos tipos pesados da Venezuela”.
Apesar do aumento das exportações, operadores relatam navios aguardando dias para descarregar ou reduzindo velocidade, e parte do volume precisa ser armazenada ou revendida.
Exportadores, destinos alternativos e a geopolítica do petróleo
As tradings Vitol e Trafigura receberam licenças para negociar o produto venezuelano e, segundo levantamento, Vitol e Trafigura exportaram cerca de 12 milhões de barris, o equivalente a aproximadamente 392 mil barris por dia, dos portos venezuelanos em janeiro, principalmente para terminais de armazenamento no Caribe.
No total, as exportações da Venezuela saltaram para cerca de 800 mil barris por dia no mês passado, ante 498 mil em dezembro, com parte do volume ainda sem comprador definido.
A China, que era o principal destino do petróleo venezuelano, deixou de receber cargas desde a captura de Maduro no início de janeiro, enquanto autoridades americanas disseram que passariam a controlar as vendas por tempo indeterminado, e Pequim rejeitou esse controle.
Analistas citam a Índia como alternativa para escoar volumes, em meio a negociações comerciais que mencionam aumento de compras indianas de petróleo, e a indiana Reliance Industries informou que estuda importar petróleo da Venezuela.
Perspectivas e riscos
O excesso de oferta e a relutância de algumas refinarias em aceitar o produto venezuelano podem manter a pressão sobre os preços, e levarão tempo até que a cadeia de refino americana volte a operar em capacidade para esses graus mais pesados.
A situação também depende de decisões políticas e das licenças concedidas, que determinam onde e em que volumes o petróleo venezuelano pode ser vendido, e do apetite de compradores na Ásia, Europa e Caribe.
Operadores do setor e executivos indicam que ajustes comerciais e logísticos serão necessários para escoar o excedente, e que a evolução dos preços será determinante para tornar os volumes competitivos e vendáveis no mercado global.