Após acordo de US$2 bilhões, o rápido aumento do petróleo venezuelano chega à Costa do Golfo, criando excesso de oferta, descontos maiores e volumes que ainda não têm comprador
As refinarias na Costa do Golfo dos Estados Unidos estão encontrando dificuldade para absorver o aumento súbito do petróleo venezuelano depois do acordo de fornecimento de US$ 2 bilhões entre Caracas e Washington.
A demanda fraca nos EUA, combinada com a liberação de licenças a tradings, tornou mais difícil vender todo o volume que saiu dos portos venezuelanos nas últimas semanas.
O excesso de oferta tem pressionado preços e deixado parte dos volumes sem comprador, conforme informação divulgada pelo g1.
Aumento de embarques e impacto nos preços
O fluxo de carga mudou de forma rápida, e operadores afirmam que há mais petróleo à venda do que compradores dispostos a processá-lo. Um operador resumiu a situação, dizendo, “Estamos todos enfrentando esse problema, em que há mais para vender e não há compradores suficientes”, segundo fontes citadas pelo g1.
Dados de embarque mostram que, no mês passado, as exportações totais de petróleo venezuelano para os Estados Unidos quase triplicaram, chegando a 284 mil barris por dia. No total, as exportações da Venezuela subiram para cerca de 800 mil barris por dia no mês passado, ante 498 mil em dezembro, de acordo com monitoramento de navios citado pelo g1.
Os preços também sentem o efeito do excesso, com cargas de petróleo pesado venezuelano para entrega na Costa do Golfo sendo oferecidas com desconto de cerca de US$ 9,50 por barril em relação ao Brent, ante descontos entre US$ 6 e US$ 7,50 registrados em meados de janeiro, conforme relatado pelo g1.
Capacidade de processamento e gargalos logísticos
Algumas refinarias precisam de ajustes para processar os graus mais pesados do petróleo venezuelano, e isso limita a velocidade com que o produto pode ser absorvido pelo mercado interno dos EUA.
Executivos do setor deram estimativas específicas, o que ajuda a dimensionar o déficit entre oferta e demanda. O presidente-executivo da Phillips 66, Mark Lashier, afirmou que a empresa pode processar cerca de 250 mil barris por dia desse petróleo, desde que os preços sejam competitivos. Por sua vez, o presidente-executivo da Chevron, Mike Wirth, disse que a rede de refino da empresa consegue processar até 150 mil barris diários dos tipos pesados da Venezuela.
Com a Chevron elevando seus embarques para 220 mil barris por dia em janeiro, ante 99 mil em dezembro, operadores dizem que parte do excedente tende a ser armazenada ou revendida, e que petroleiros às vezes aguardam dias para descarregar em portos dos EUA, ou reduzem velocidade durante a viagem, conforme monitoramento citado pelo g1.
Quem está vendendo e para onde vai o petróleo
Após a captura do presidente Nicolás Maduro no início de janeiro e a reabertura parcial das exportações, os EUA emitiram licenças para que tradings como a Vitol e a Trafigura negociassem e vendessem milhões de barris venezuelanos. A Chevron já tinha autorização para exportar para os EUA.
Em janeiro, Vitol e Trafigura exportaram cerca de 12 milhões de barris, o equivalente a aproximadamente 392 mil barris por dia, principalmente para terminais de armazenamento no Caribe, mas grande parte desse volume ainda não foi vendida, de acordo com fontes citadas pelo g1.
A China, que era o principal destino do petróleo venezuelano, deixou de receber cargas desde a captura de Maduro. Autoridades americanas dizem que os EUA passaram a controlar as vendas da Venezuela por tempo indeterminado, posição rejeitada por Pequim. A estatal chinesa PetroChina orientou comerciantes a suspenderem novas negociações enquanto avalia o cenário, segundo o g1.
Riscos e alternativas para escoamento
Com certa folga na demanda interna americana, empresas podem optar por armazenar o excedente, reduzir preços para buscar compradores ou direcionar cargas a mercados alternativos, como Índia, que tem mostrado interesse.
O presidente Trump anunciou um acordo comercial com a Índia que prevê redução de tarifas dos EUA em troca de menor compra de petróleo russo e maior aquisição de petróleo americano, e possivelmente venezuelano. A indiana Reliance Industries informou que estuda importar petróleo da Venezuela, segundo informações citadas pelo g1.
Enquanto isso, empresas como a Chevron e as tradings mantêm posições ativas, mas algumas, incluindo a Chevron e a Trafigura, não comentaram o assunto, e a estatal PDVSA e a Vitol não responderam aos pedidos de comentário, conforme apontado pelo g1.