Excesso de oferta derruba preços, deixa cargas sem comprador e pressiona refinarias americanas, que precisam adaptar unidades para processar o petróleo venezuelano
As refinarias da Costa do Golfo dos Estados Unidos enfrentam dificuldades para absorver um aumento rápido dos embarques de petróleo venezuelano, depois do acordo de fornecimento entre Caracas e Washington.
O excesso de oferta tem pressionado os preços e deixou parte dos volumes sem comprador, segundo operadores do mercado e dados de embarque.
As informações que embasam esta reportagem foram divulgadas nesta terça, conforme informação divulgada pelo g1
Por que as refinarias americanas relutam
O aumento das exportações venezuelanas chegou num momento em que a demanda nos EUA está fraca, criando um obstáculo inicial aos planos do presidente Donald Trump de direcionar a maior parte do produto ao mercado americano.
Após a operação em Caracas que resultou na captura de Nicolás Maduro, Vitol e Trafigura receberam licenças do governo dos EUA para negociar e vender milhões de barris de petróleo venezuelano, e se juntaram à Chevron, que já tinha autorização para exportar o petróleo do país.
Apesar da liberação, operadores dizem que algumas refinarias estão relutantes, porque muitas instalações precisam de ajustes para processar graus mais pesados do produto, e porque os preços ainda competem com os graus pesados canadenses.
Descontos, volumes e dados recentes
Cargas de petróleo pesado venezuelano para entrega na Costa do Golfo estão sendo oferecidas com desconto de cerca de US$ 9,50 por barril em relação ao Brent, ante descontos entre US$ 6 e US$ 7,50 registrados em meados de janeiro, segundo operadores ouvidos.
Em janeiro, as exportações totais de petróleo venezuelano para os Estados Unidos quase triplicaram, chegando a 284 mil barris por dia, segundo dados baseados no movimento de navios.
No total, as exportações de petróleo da Venezuela saltaram para cerca de 800 mil barris por dia no mês passado, ante 498 mil em dezembro, mostram monitoramentos de embarque citados pelas fontes.
Quem pode processar e o que sobra no mercado
Algumas companhias afirmam capacidade limitada para absorver todo o volume novo. O presidente-executivo da Phillips 66, Mark Lashier, afirmou que a empresa pode processar cerca de 250 mil barris por dia desse petróleo, desde que os preços sejam competitivos.
Já a Chevron elevou embarques e, segundo a reportagem, passou de 99 mil barris por dia em dezembro para 220 mil barris por dia em janeiro. Mike Wirth, presidente-executivo da Chevron, afirmou que a rede de refino da Chevron consegue processar até 150 mil barris diários dos tipos pesados da Venezuela, o que indica sobra para armazenar ou revender.
Fontes também relatam petroleiros fretados pela Chevron aguardando dias para descarregar em portos dos EUA, e que Vitol e Trafigura exportaram cerca de 12 milhões de barris — o equivalente a aproximadamente 392 mil barris por dia — dos portos venezuelanos em janeiro, grande parte direcionada a terminais no Caribe, com volumes ainda por vender.
Impactos globais e alternativas
Antes das sanções impostas por Washington em 2019, os EUA importavam cerca de 500 mil barris diários do país, segundo os registros citados, e esse volume caiu a zero em meados de 2025, após revogações de licenças.
A China, que era destino principal, deixou de receber cargas desde a captura de Maduro no início de janeiro, e autoridades americanas disseram que passariam a controlar as vendas por tempo indeterminado. Pequim rejeitou esse controle, e a PetroChina orientou comerciantes a suspender novas negociações.
Uma alternativa para escoar o excedente pode surgir na Índia, após um acordo comercial anunciado por Trump que inclui, em troca de redução de tarifas, menor compra de petróleo russo e maior aquisição de petróleo americano, e possivelmente venezuelano. A indiana Reliance Industries informou que estuda importar petróleo da Venezuela.
Um operador resumiu o dilema do mercado, dizendo, “Estamos todos enfrentando esse problema, em que há mais para vender e não há compradores suficientes“, ilustrando a pressão atual sobre preços e logística.
Enquanto Chevron, Vitol e Trafigura ajustam vendas e rotas, o mercado segue em tensão entre excesso de oferta, capacidade de refino e disputas geopolíticas que definem quem vai, de fato, consumir o novo fluxo de petróleo venezuelano.