Com o acordo entre Caracas e Washington, importações cresceram muito, mas a fraca demanda nos EUA, descontos e necessidade de ajustes em refinarias deixam parte do petróleo venezuelano encalhado
O rápido aumento das exportações venezuelanas tem criado um excesso de oferta que as refinarias da Costa do Golfo dos Estados Unidos ainda não conseguem absorver.
Os volumes adicionais, somados a preços pressionados, deixaram parte do óleo sem comprador e forçaram negociações e realocação de cargas no mercado global.
As principais tradings e a Chevron receberam autorizações para operar com o petróleo venezuelano, mas a adaptação das refinarias e a demanda fraca são obstáculos imediatos, conforme informação divulgada pelo g1.
Por que as refinarias resistem ao petróleo venezuelano
Algumas refinarias americanas relutam em comprar o petróleo venezuelano, porque os graus pesados exigem ajustes nas unidades de processo, e nem todas as plantas da Costa do Golfo estão prontas para isso.
Segundo operadores, “Estamos todos enfrentando esse problema, em que há mais para vender e não há compradores suficientes”, citando a relutância das refinarias americanas em comprar petróleo venezuelano.
O presidente-executivo da Phillips 66, Mark Lashier, afirmou que a empresa pode processar cerca de 250 mil barris por dia desse petróleo, desde que os preços sejam competitivos, o que mostra limites de capacidade mesmo para refinadores dispostos a operar com o produto.
Impacto nos preços e nos volumes
Com o aumento das ofertas, os preços sofreram queda, mas ainda são considerados altos frente a concorrentes, segundo operadores do mercado.
Atualmente, cargas de petróleo pesado venezuelano para entrega na Costa do Golfo estão sendo oferecidas com desconto de cerca de US$ 9,50 por barril em relação ao Brent, ante descontos entre US$ 6 e US$ 7,50 registrados em meados de janeiro.
No mês passado, as exportações totais de petróleo venezuelano para os Estados Unidos quase triplicaram, chegando a 284 mil barris por dia, segundo dados baseados no movimento de navios.
Quem está vendendo e para onde vão os embarques
A Chevron, que tem autorização para exportar para os EUA, elevou seus embarques para 220 mil barris por dia em janeiro, ante 99 mil em dezembro, enquanto Vitol e Trafigura movimentaram volumes significativos para terminais no Caribe.
Vitol e Trafigura exportaram cerca de 12 milhões de barris, o equivalente a aproximadamente 392 mil barris por dia, dos portos venezuelanos em janeiro, mas grande parte desse volume ainda não foi vendida, segundo fontes.
No total, as exportações de petróleo da Venezuela saltaram para cerca de 800 mil barris por dia no mês passado, ante 498 mil em dezembro.
Riscos, alternativas e cenário político
Antes das sanções impostas por Washington em 2019, os EUA importavam cerca de 500 mil barris diários do país, esse volume caiu a zero em meados de 2025, após Trump revogar todas as licenças de comercialização e transporte, lembram operadores.
A China, que era o principal destino do petróleo venezuelano, deixou de receber cargas desde a captura de Maduro no início de janeiro, e autoridades americanas disseram que passariam a controlar as vendas da Venezuela por tempo indeterminado.
Uma alternativa para escoar parte do petróleo venezuelano pode surgir na Índia, onde empresas como a Reliance Industries já estudam compras, conforme negociações e acordos comerciais entre Washington e Nova Délhi.
Enquanto refinarias buscam ajustar processos e compradores avaliam preços, o mercado deve continuar volátil nas próximas semanas, com impactos em prazos de descarga, armazenamento e revenda das cargas.