Reforma da Previdência precisa ser repensada agora, por que alta informalidade, benefícios indexados ao mínimo e envelhecimento exigem novas regras urgentes
Nova reforma da Previdência deveria estar sendo pensada para enfrentar queda de arrecadação, aumento das despesas e projeção de déficit do RGPS nas próximas décadas
O tema da reforma da Previdência voltou à agenda por causa de três forças que pressionam as contas públicas, que se combinam e agravam o rombo fiscal.
O aumento da informalidade no mercado de trabalho reduz a base de contribuintes, a parcela de benefícios indexados ao salário mínimo sobe em termos reais e a população envelhece, reduzindo o número de pessoas em idade ativa por aposentado.
Esses pontos e dados sobre déficit, crescimento de beneficiários e composição das despesas foram levantados nas informações recebidas, conforme informações fornecidas.
Três fatores que reacendem a discussão
Embora a última reforma tenha ocorrido há menos de dez anos, em 2019, três fatores combinados pressionam as contas públicas e reacendem a discussão sobre novas alterações.
São eles: alta informalidade, acompanhada de transformações no mercado de trabalho, com ocupações que não contribuem para a Previdência, benefícios indexados ao salário mínimo, com ganhos reais nos últimos anos, e envelhecimento da população, somado à queda da natalidade.
O texto que embasa a análise destaca que a última reforma conseguiu conter o rombo, sobretudo em 2024 e 2025, mas que projeções do próprio governo federal indicam que o déficit do Regime Geral de Previdência Social (RGPS) pode mais que quadruplicar ao longo dos próximos 75 anos.
Déficit e queda da arrecadação em números
Em 2025, a diferença entre o que foi arrecadado e o que o governo federal teve que colocar a mais para para pagar benefícios, aposentadorias e pensões foi de R$ 436 bilhões, conforme os dados fornecidos.
A maior parte desse dinheiro foi para cobrir o déficit do RGPS: mais de R$ 320 bilhões – R$ 17 bilhões a mais do que em 2024, segundo as informações recebidas.
O cenário é explicado pela alta informalidade do mercado de trabalho e pelo surgimento de novas formas de ocupações que não recolhem para a previdência, como trabalhadores de aplicativo, o que reduz a arrecadação permanente do sistema.
O consultor Bernardo Schettini ressalta o impacto da política de valorização do salário mínimo na despesa previdenciária, e afirma, “É um desafio bem complicado. Nesse modelo que a gente tem hoje, não vejo sustentabilidade. Acho que a gente tem que fazer uma mudança no modelo de custeio da previdência“, disse.
Envelhecimento e descompasso entre contribuintes e beneficiários
O envelhecimento demográfico é outro fator central, e as projeções apontam para um aumento expressivo da população idosa nas próximas décadas.
Na avaliação do consultor Leonardo Rolim, “Se a gente olhar para 2070, quando quem está entrando no mercado de trabalho agora provavelmente vai estar se aposentando, nós vamos mais do que dobrar novamente o número de idosos. Nós vamos ter em 2070 mais ou menos seis vezes o número de idosos que tínhamos em 2000“, disse.
Rolim também aponta que “Nos últimos 25 anos, o número de pessoas em idade ativa, potenciais contribuintes da Previdência, cresceu cerca de 30%, enquanto o total de potenciais beneficiários mais do que dobrou“, afirmou.
No sistema de repartição, usado no Brasil, as contribuições dos trabalhadores ativos são utilizadas para pagar os benefícios dos aposentados e pensionistas, sem a formação de um fundo individual para cada segurado, o que torna o equilíbrio dependente da relação entre ativos e beneficiários.
Crescimento de benefícios e pressão sobre despesas
O volume de benefícios também aumentou de forma consistente, intensificando a pressão fiscal sobre o sistema.
Segundo Pedro Souza, analista da Instituição Fiscal Independente, “O total, há 10 anos, em 2015, era de 28,3 milhões de beneficiários. Atualmente, em 2025, totalizou 35,2 milhões. Quando se olha o crescimento, anualmente, o volume de benefícios emitidos é de 2,21% a.a., em média“, disse o analista.
Ele lembra que “em termos reais, valores de janeiro de 2026, o déficit da previdência saiu de R$ 147,5 bilhões em 2015 para R$ 323,1 bilhões em 2025” e que isso decorre muito mais do crescimento das despesas, que atingiram um valor total de R$ 1,04 trilhão em 2025.
Em dez anos, a receita do RGPS cresceu em média 1,82% a.a., em termos reais, enquanto a despesa cresceu 3,37% a.a., perto do dobro, segundo os dados apresentados.
O que precisa ser pensado para uma nova reforma
Especialistas ouvidos apontam que a discussão não é se haverá reforma, e sim qual modelo de custeio e de regras será adotado para garantir sustentabilidade e justiça intergeracional.
As alternativas apontadas incluem mudanças na base de contribuição para abarcar ocupações informais, revisão do vínculo entre benefícios e salário mínimo, e mecanismos que tornem o financiamento menos dependente apenas da relação entre contribuintes e beneficiários.
O secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, já admitiu que o sistema previdenciário brasileiro está pressionado e que o tema precisará ser discutido, o que indica que o debate presidencial e legislativo deve avançar nos próximos anos.
A urgência decorre da combinação entre queda da arrecadação, crescimento das despesas e uma população que envelhece, fatores que, se não forem enfrentados, tendem a ampliar o rombo fiscal e a reduzir a capacidade do Estado de pagar benefícios adequados no futuro.