O prefeito afirmou que ‘Nem Jesus Cristo salva essa Enel’, citou que mais de 80% dos locais não tiveram queda de árvores, e criticou a gestão dos apagões em São Paulo
O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, rebateu com duras críticas a declaração do CEO global da Enel sobre a inevitabilidade de apagões em razão da arborização urbana.
Nunes acusou a concessionária de incompetência e afirmou que a fala do executivo foi um deboche diante dos problemas enfrentados pelos paulistanos.
As declarações e os dados sobre quedas de energia e laudos da empresa têm alimentado um debate que envolve a Aneel e possíveis medidas administrativas contra a Enel,
conforme informação divulgada pelo g1
Reação do prefeito e o teor das críticas
Em evento, o prefeito disse, “Nem Jesus Cristo salva essa Enel. Muita cara de pau. Um deboche. O nível de incompetência é tão grande que, somado à capacidade de mentiras, chega a assustar. Mais de 80% dos locais que ficaram sem energia não tiveram queda de árvores”, frase que colocou em destaque a disputa sobre a responsabilidade pela prestação do serviço.
Nunes vinculou as falhas à capacidade de resposta da concessionária e ao manejo das redes aéreas, e pediu maior rigor das autoridades reguladoras diante dos episódios de falta de energia.
O que disse o CEO da Enel e a defesa da empresa
O CEO global da Enel, Flavio Cattaneo, explicou que a rede elétrica aérea na região metropolitana sofre com árvores que, segundo ele, muitas vezes estão “dentro das árvores”, e que isso dificulta o restabelecimento após tempestades.
Cattaneo afirmou, “Na nossa avaliação, não se trata apenas de um problema da Enel. Se esse tipo de arborização continuar, só alguém seria capaz de resolver, e não é um ser humano, é Jesus Cristo, porque não há como evitar apagões de outra forma”, argumento usado pela empresa para defender a importância do manejo arbóreo.
A empresa também disse ter mostrado às autoridades resultados que apontariam uma melhora de 50% na qualidade do serviço no último ano, segundo relatos da própria Enel.
Investigação da Aneel e risco de caducidade
Os serviços da Enel no Brasil estão sob forte escrutínio desde o final de 2024, após episódios em que as distribuidoras do grupo demoraram dias para restabelecer o fornecimento após eventos climáticos extremos.
A Agência Nacional de Energia Elétrica, Aneel, iniciou análise sobre eventual caducidade do contrato da Enel em São Paulo, processo que foi aberto em novembro e teve o escopo ampliado para incluir o grande apagão de dezembro.
O diretor Gentil Nogueira pediu mais 60 dias para elaborar voto, enquanto o diretor-geral Sandoval Feitosa manifestou a necessidade de deliberação em caráter de urgência, mostrando divisão interna sobre o prazo e o procedimento.
A Enel, por sua vez, tem se defendido com pareceres jurídicos de especialistas, entre eles Marçal Justen Filho e Gustavo Binenbojm, que argumentam que incluir o apagão de dezembro na avaliação seria ilegal e inconstitucional.
Laudos, números e investimentos
O apagão de dezembro afetou milhões de consumidores, com relatos que mencionam 4,4 milhões de consumidores impactados e mais de 4 milhões de imóveis sem energia entre os dias 10 e 11 de dezembro, segundo os registros da crise.
Em projeto-piloto, a Enel mapeou 770 mil árvores na área de concessão na Grande São Paulo em colaboração com prefeituras, e informou que, do total de árvores que caíram no episódio de dezembro de 2025, 9 das 145 árvores efetivamente tombadas tinham risco identificado.
A perícia contratada pela empresa apontou vento como principal causa das quedas, com fatores secundários como fungos contribuindo para o tombamento, e a companhia afirma que o manejo arbóreo e a condição de cabos nas copas dificultam a prevenção de apagões em tempestades.
No plano global, a Enel anunciou um pacote de investimentos de 53 bilhões de euros entre 2026 e 2028, com cerca de 6,2 bilhões de euros previstos para a América Latina, incluindo Brasil, Chile, Colômbia e Argentina, condicionados a um ambiente regulatório previsível.
O caso segue em evolução, com a discussão sobre responsabilidades técnicas e administrativas, pressões públicas por melhor serviço e a análise da Aneel sobre medidas que podem ir desde exigências de melhoria até a caducidade da concessão, diante dos repetidos episódios de apagões em São Paulo.