Riquezas naturais da Venezuela além do petróleo, coltan e terras raras, ferro, bauxita e ouro, como essas reservas mudam a geopolítica e ameaçam o meio ambiente
Como as riquezas naturais da Venezuela, das reservas de ferro e bauxita ao coltan e terras raras, podem atrair investimentos, conflitos e causar danos ambientais
A Venezuela é conhecida pelas suas reservas de petróleo, mas o subsolo do país guarda outras fortunas minerais que interessam a indústrias estratégicas, governos e grupos ilegais.
Além de petróleo extrapesado, existem depósitos importantes de ferro, bauxita, ouro, coltan, terras raras e outros minerais usados em tecnologia, energia e defesa.
As informações a seguir foram reunidas a partir de levantamento jornalístico e relatórios de especialistas e autoridades, conforme informação divulgada pela BBC News Mundo.
Onde estão as jazidas e que reservas existem
A maior parte das jazidas além do petróleo está concentrada no sudeste da Venezuela, na região de Guayana, que inclui os Estados de Bolívar, Amazonas e Delta Amacuro, área onde também ficam os maiores campos de petróleo do país.
O Centro Internacional de Investimentos Produtivos, CIIP, indica que a Venezuela detém a oitava maior reserva mundial de ferro, com 14,721 bilhões de toneladas do metal, e mais de 321 milhões de toneladas de bauxita, matéria-prima do alumínio.
Sobre o ouro, o CIIP afirma que o país abriga entre 2,2 mil e 8 mil toneladas do metal, número que transformaria a Venezuela em uma das maiores reservas mundiais, embora especialistas alertem que esses dados não foram verificados de forma independente.
Coltan, terras raras e o potencial tecnológico
Em levantamentos geológicos históricos foram detectadas terras raras em áreas como Cerro Impacto, entre Bolívar e Amazonas, e também nício, tório, nióbio e tântalo, minerais relevantes para baterias, telas, ímãs e aplicações nucleares.
O coltan, mistura de columbita e tantalita usada na indústria eletrônica, também existe no país, e declarações oficiais já estimaram reservas expressivas, embora avaliações sejam preliminares.
Em 2018, a primeira exportação formal registrada foi de cinco toneladas de coltan para a Itália, pelo valor de US$ 330 mil, segundo anúncio do então ministro do Desenvolvimento Mineral, Víctor Cano, e desde então há relatos de contrabando crescente.
Arco Mineiro do Orinoco, o plano B do governo e os números do ouro
Com a queda da produção de petróleo, o governo de Nicolás Maduro lançou em 2016 o Arco Mineiro do Orinoco, uma área de mais de 110 mil km², equivalente a 12% do território venezuelano, dividida em blocos para exploração mineral.
Espera-se que a região renda investimentos, mas a falta de segurança jurídica, sanções internacionais e a crise política reduziram o interesse formal de empresas, segundo analistas.
Apesar disso, a extração informal e ilegal cresceu e a produção de ouro alcançou níveis inéditos nos últimos anos, estimada entre 40 a 50 toneladas por ano, com valor aproximado de US$ 2,7 bilhões a US$ 3,3 bilhões.
Relatório da organização Transparência Venezuela, publicado em 2024, afirma que, desses valores, estariam ingressando no Banco Central da Venezuela apenas 8% do ouro explorado, a título de royalties, e 6% pela autorização de exportação, enquanto as organizações criminosas ficariam com cerca de 20% e as alianças estratégicas vinculadas à elite política, com 66%.
Em fevereiro, a presidente interina Delcy Rodríguez afirmou que o ouro “mantém o serviço exterior” e revelou que foram extraídas 9,5 toneladas do metal em 2025.
Riscos ambientais, contrabando e interesse internacional
Especialistas alertam que muitas jazidas estão em áreas de difícil acesso, com vegetação densa e sedimentos, como Cerro Impacto, o que tornaria a exploração de larga escala ambientalmente danosa.
O geólogo Gustavo Coronel e o sociólogo Emiliano Terán Mantovani apontam que a mineração desordenada ameaça comunidades indígenas, amplifica o crime organizado e, em alguns casos, envolve setores militares.
Ao mesmo tempo, autoridades e analistas observam o crescente interesse externo pelas riquezas minerais, não apenas pelo petróleo, com declarações públicas de líderes e órgãos internacionais destacando a relevância de minerais críticos como bauxita, níquel, cobre e carvão.
Especialistas também ressaltam que, no curto prazo, a Venezuela enfrenta obstáculos para se tornar um fornecedor confiável, pela falta de infraestrutura moderna, estudos independentes e um marco jurídico estável.
Entre oportunidade e tensão
O quadro que se desenha é de grande potencial econômico, riscos socioambientais e pressões geopolíticas, com a possibilidade de investimentos privados, reformas legais e disputas por controle das jazidas.
Para que a exploração mineral gere benefícios sociais e econômicos reais, especialistas apontam a necessidade de estudos confiáveis, transparência, proteção ambiental e respeito aos direitos das populações locais.
O debate sobre as riquezas naturais da Venezuela, portanto, envolve interesses comerciais e estratégicos, responsabilidades ambientais e a definição de quem, de fato, se beneficia dessas reservas.