Rombo de R$ 500 mil em acordo com agência, casal 2depais descobre falta de repasses, acusa isolamento e leva caso ao Ministério Público

Investigação dos influenciadores mostra que marcas pagaram campanhas, contrato dava à agência controle total e casal estima rombo superior a R$ 500 mil

Dois criadores que comandam o perfil 2depais relatam que só descobriram um rombo de R$ 500 mil depois de cruzar comprovantes enviados por marcas com os registros que a agência lhes apresentava, e que recebiam justificativas para atrasos que, com o tempo, se tornaram frequentes.

Segundo o casal, o contrato com a agência dava a ela controle sobre negociações, repasses e comunicação com as marcas, enquanto os influenciadores eram orientados a evitar contato externo, o que dificultou a checagem financeira por parte deles.

As informações foram prestadas em entrevista ao g1 e, diante da documentação reunida, o casal procurou advogado e levou o caso ao Ministério Público, conforme informação divulgada pelo g1

Como era a relação com a agência

A parceria começou em 2021, quando o perfil ainda estava em crescimento e a promessa da Hello Group foi profissionalizar o trabalho dos criadores. O contrato dava à agência exclusividade para fechar campanhas, assinar contratos, emitir notas fiscais, receber pagamentos e repassar os valores, com desconto de 30% de comissão.

No início, os influenciadores relatam que a rotina pareceu funcionar, com campanhas e crescimento do perfil, mas, com o tempo, surgiram atrasos frequentes e um conjunto de orientações para manter os criadores isolados. “Era sempre assim: ‘nunca conte qual é o seu trabalho, quanto você está ganhando, nunca fale com as pessoas, porque isso vai te derrubar'”, conta um dos integrantes do casal.

Outra frase citada pelos influenciadores, para justificar a centralização, foi, “deixa que eu tomo conta de tudo, eu resolvo tudo”. Com a comunicação intermediada, a etapa financeira ficava sempre oculta, segundo o casal.

Descoberta do rombo e provas reunidas

Sem relatórios ou prestação de contas oficiais, os influenciadores passaram a manter sua própria planilha de campanhas e valores, e notaram divergências. Ao contatar marcas diretamente, receberam comprovantes que mostravam pagamentos quitados meses antes, em contraste com a versão da agência, que dizia não ter recebido.

O casal afirma que, ao cruzar documentos, identificou que pagamentos feitos às empresas contratantes constavam como feitos, mas não tinham sido repassados a eles, levando à conclusão de um prejuízo superior a R$ 500 mil. Com os documentos, buscaram um advogado para formalizar as denúncias.

Medidas legais e decisão judicial

O advogado do casal apresentou o caso ao Ministério Público, apontando possibilidade de apropriação indébita majorada, quando alguém recebe dinheiro em nome de outra pessoa e não o repassa. Foram solicitados, entre outros pedidos, bloqueio de bens e prestação de contas da agência.

Em decisão de segunda-feira (19), o juiz Caio Hunnicutt Fleury Moraes considerou que não havia provas suficientes para autorizar depósito judicial e bloqueio de valores da empresa, mas determinou que uma patrocinadora com contrato de R$ 42 mil com a agência pague a parte dos influenciadores diretamente a eles, conforme informações divulgadas pelo g1.

Enquanto o processo corre, o casal afirma que outros criadores os procuraram relatando problemas semelhantes, o que, segundo eles, pode indicar prática recorrente.

Riscos contratuais e orientações de especialista

A advogada Mayra Mega Itaborahy, ouvida pelo g1, destaca a importância de cláusulas claras sobre transparência financeira em contratos entre influenciadores e agências. Ela aponta que é essencial limitar o poder da agência, exigir autorização prévia e por escrito para acordos, e garantir acesso a todos os contratos, valores e comprovantes.

Itaborahy alerta para sinais de alerta, como exclusividade excessiva, resistência a fornecer documentos, e falta de relatórios. Ela lembra que o atraso no repasse caracteriza inadimplência, que pode gerar juros e multa, e que, em casos mais graves, pode configurar crime de apropriação indébita, conforme o artigo 168 do Código Penal.

A advogada também afirma, “São contratos específicos, que podem gerar prejuízos e afetar a reputação do criador”, e reforça que, “Contratos, comprovantes e registros escritos são provas essenciais em disputas”.

Como influenciadores podem se proteger

Especialistas recomendam incluir no contrato cláusulas sobre prazos de pagamento, forma de repasse, multa por atraso e possibilidade de repasses diretos ao influenciador. Modelos considerados mais seguros mencionam pagamentos separados, uso de contas de garantia, ou repasses diretamente ao criador, quando possível.

Manter organização de documentos, guardar e cruzar e-mails, comprovantes e contratos, e não depender exclusivamente da palavra da agência, são medidas práticas que ajudam a reduzir riscos. Em caso de suspeita, procurar orientação jurídica e formalizar reclamações pode preservar direitos e reunir provas.

O caso do casal 2depais reforça a necessidade de transparência nas relações comerciais entre criadores e representantes, e serve como alerta para profissionais que trabalham com conteúdo remunerado, que devem exigir mecanismos claros de prestação de contas desde o início das parcerias.