Rombo de R$ 500 mil em agência, casal 2depais relata isolamento, atraso de repasses e acusa Hello Group de apropriação indébita, entenda o caso e prevenção
Casal de influenciadores diz ter identificado rombo de R$ 500 mil ao confrontar comprovantes de marcas, relata isolamento imposto pela agência e ausência de prestação de contas
Dois criadores de conteúdo conhecidos pelo perfil 2depais explicam como a rotina de trabalho virou investigação, depois de perceberem discrepâncias entre campanhas registradas e valores recebidos.
Eles relatam que o contrato dava à agência controle sobre negociações, repasses e comunicações, e que orientações para evitar contato externo impediram a checagem independente.
Comprovantes obtidos junto a anunciantes mostraram que pagamentos haviam sido feitos, enquanto a agência dizia não ter recebido, o que levou à suspeita de montante superior a R$ 500 mil, conforme informação divulgada pelo g1.
Como a descoberta aconteceu
Segundo o casal, no início os atrasos pareciam pontuais, com justificativas sobre o mercado e burocracia, mas tornaram-se frequentes, sem relatórios ou comprovantes. Eles passaram a registrar campanhas em planilha própria e notaram muitas inconsistências.
Ao contatar diretamente algumas marcas, receberam comprovantes que mostravam pagamentos feitos meses antes, para campanhas que a agência dizia não ter quitado. Um dos influenciadores lembra, “Nossa filha estava com meningite (…) ela estava passando mal. A gente levou ela para o hospital. No caminho para o hospital, recebemos o primeiro comprovante de que não existia nenhum pagamento em atraso em relação àquela marca”.
O perfil 2depais soma mais de 2,5 milhões de seguidores, e a parceria com a Hello Group começou em 2021, com contrato que dava exclusividade à agência para fechar campanhas, emitir notas fiscais, receber pagamentos e repassar valores, com comissão prevista de 30%, enquanto os influenciadores receberiam 70% do valor.
Acusações, medidas e decisão judicial
Reunidos os comprovantes e documentos, o casal procurou um advogado e levou o caso ao Ministério Público, apontando possibilidade de apropriação indébita majorada, quando alguém recebe dinheiro em nome de outra pessoa e não o repassa.
O g1 informou que, em decisão de segunda-feira, o juiz Caio Hunnicutt Fleury Moraes entendeu não haver provas suficientes para autorizar depósito judicial e bloqueio de valores da agência, mas determinou que uma patrocinadora com contrato de R$ 42 mil pague a parte dos influenciadores diretamente a eles.
Os responsáveis pela Hello Group foram procurados pelo g1 para comentar as acusações, mas, até a última atualização da reportagem, não houve retorno.
Impactos financeiros e psicológicos
Sem receber repasses, o casal diz ter emitido notas fiscais sem ter o dinheiro correspondente, o que resultou em débitos fiscais que tiveram de ser parcelados, mais de R$ 40 mil segundo o relato dos influenciadores.
Além do prejuízo financeiro, aparece o custo emocional, com relatos de estresse intenso. Um dos influenciadores afirmou que desenvolveu uma doença autoimune ligada ao estresse e descreveu sentimento de insegurança e desconfiança em relação a outras pessoas.
O caso também ganhou repercussão nas redes sociais, e, segundo o casal, outros criadores relataram problemas parecidos com a mesma agência, o que sugere que não seria um episódio isolado.
Cuidados contratuais e recomendações de especialistas
Ouvida pelo g1, a advogada Mayra Mega Itaborahy, especialista em direito digital, destaca a necessidade de cláusulas contratuais que garantam transparência financeira e acesso a documentos, para reduzir riscos e evitar retenções indevidas.
Entre pontos apontados como essenciais estão, segundo a advogada, a necessidade de:
- Limitar o poder da agência;
- Exigir autorização prévia e por escrito do influenciador para qualquer acordo;
- Garantir que o criador tenha acesso a todos os contratos feitos em seu nome, com valores, prazos e obrigações.
Itaborahy alerta que, mesmo quando a agência negocia sozinha, ela deve apresentar contratos, comprovantes de pagamento e prestações de contas sempre que solicitados, pois, sem isso, o risco para o influenciador aumenta.
A advogada ainda afirma que o atraso no repasse de valores caracteriza inadimplência e pode gerar juros e multa, e que, em situações graves, pode configurar crime de apropriação indébita, e acrescenta, “São contratos específicos, que podem gerar prejuízos e afetar a reputação do criador”.
Ela recomenda modelos mais seguros, como repasses diretos ao influenciador, pagamentos separados ou uso de contas de garantia, e lembra que, “Contratos, comprovantes e registros escritos são provas essenciais em disputas”.
Para influenciadores, a lição é insistir em clareza contratual, exigir prestação de contas periódica, guardar todos os documentos e evitar cláusulas de exclusividade e isolamento que impeçam a verificação independente das receitas.