Schoenstatt: A Influência do Movimento Ultraconservador no Chile e no Brasil e as Controvérsias de seu Fundador
O Schoenstatt: Um Movimento Católico Ultraconservador com Raízes Profundas no Chile e no Brasil
O recente cenário político chileno, com a eleição de José Antonio Kast, trouxe à tona a influência do movimento Schoenstatt. Com profundas convicções religiosas declaradas pelo presidente eleito, o Schoenstatt, um movimento católico ultraconservador, tem expandido sua atuação globalmente, incluindo uma presença significativa no Brasil.
Fundado na Alemanha no início do século XX, o movimento se define como um “movimento apostólico de renovação, nascido dentro da Igreja”, com um forte “caráter mariano”. Seu objetivo principal é a formação de “um novo homem e de uma nova comunidade que sirvam à Igreja e à sociedade”, conforme explica o padre Felipe Ríos, coordenador do movimento nas Américas.
A organização, que opera em mais de 100 países, incluindo todos da América Latina, tem suas origens em um vilarejo alemão de mesmo nome, que significa “lugar bonito”. O movimento se espalhou pelo mundo através da construção de réplicas de uma capela restaurada por seu fundador, o padre alemão José Kentenich, em 1914. Conforme divulgado pelo g1, atualmente existem cerca de 200 “santuários filiais” Schoenstatt espalhados globalmente.
Origens e Estrutura do Schoenstatt
O padre José Kentenich fundou o Schoenstatt em outubro de 1914, em meio ao início da Primeira Guerra Mundial. A organização nasceu em um seminário na Alemanha, onde Kentenich buscava formar um “novo homem” e uma “nova comunidade”. O movimento se distingue por sua estrutura que abrange ramos leigos e religiosos, incluindo uma ordem sacerdotal e uma comunidade de mulheres consagradas, que se assemelham a freiras, mas sem votos formais.
Comparado ao Opus Dei por alguns estudiosos, como a historiadora italiana Alexandra von Teuffenbach, o Schoenstatt apresenta diferenças. Enquanto o Opus Dei é conhecido por sua influência política e econômica, especialmente durante o regime franquista na Espanha, o Schoenstatt, segundo o filósofo chileno Álvaro Ramis Olivo, “prioriza a vida familiar mais do que a vida pública” e não buscou influenciar a política da mesma forma.
Apesar de compartilhar um rigor sexual e moral com o Opus Dei, o Schoenstatt não é descrito como tendo um “tom tão culpabilizador”, nem recorre a penitências extremas como flagelações. O movimento tem forte presença em classes abastadas, mas também em setores médios e profissionais, sendo considerado conservador, embora com certo pluralismo ideológico.
Expansão para a América Latina e o Brasil
A América do Sul foi a primeira região fora da Europa a receber o Schoenstatt. Na década de 1930, o movimento chegou à Argentina, seguido pelo Brasil e Uruguai. Atualmente, o Schoenstatt atua em quase todos os países latino-americanos, com exceção de algumas ilhas caribenhas e países como Guianas e Suriname. Somente no Chile, Argentina e Brasil, existem quase 80 santuários do movimento.
O movimento administra escolas em quatro países latino-americanos (Chile, Argentina, Equador e México), um hospital em Buenos Aires e outras iniciativas sociais. A expansão foi impulsionada pelo próprio fundador, José Kentenich, que visitou a América do Sul diversas vezes. O Chile, em particular, é um dos locais de maior força internacional do Schoenstatt, pois seu fundador residiu no país por um período.
Controvérsias e Acusações contra o Fundador
A trajetória de José Kentenich não é isenta de controvérsias. Em 1941, ele foi preso pela Gestapo nazista e enviado ao campo de concentração de Dachau, onde permaneceu até o fim da Segunda Guerra Mundial. Após a guerra, o padre ganhou prestígio, mas, no final da década de 1940, setores da hierarquia católica alemã expressaram preocupação com seu estilo de liderança e o controle exercido sobre os membros.
Algumas irmãs do movimento acusaram Kentenich de abuso. Em 1951, o Papa Pio XII o afastou de suas funções e o enviou para um exílio de 14 anos nos Estados Unidos. Conforme relatado pelo g1, seguidores de Kentenich apresentaram o episódio como um conflito de poder, no qual ele teria sido vítima de inveja e ciúmes eclesiásticos.
Em 2020, a historiadora Alexandra von Teuffenbach publicou um livro com acusações de abuso sexual cometidas por Kentenich contra uma integrante do Schoenstatt no Chile em 1947. As alegações se baseiam em diários de investigadores do Vaticano e documentos do pontificado de Pio XII. A liderança do Schoenstatt nega as acusações, mas admite que alguns comportamentos do fundador são controversos. Essas denúncias impactaram o processo de beatificação de Kentenich, iniciado em 1975.
O Schoenstatt no Contexto Atual
Apesar das controvérsias, o rótulo “ultraconservador” atribuído ao Schoenstatt não preocupa o coordenador do movimento nas Américas, padre Felipe Ríos. Ele afirma que o Schoenstatt segue as diretrizes da Igreja Católica e que, em sua opinião, “não estamos entre os mais conservadores da Igreja”.
A eleição de José Antonio Kast no Chile reforça a visibilidade do Schoenstatt no cenário político e religioso. No Brasil, o movimento continua ativo, com suas escolas, santuários e iniciativas voltadas para a comunidade, mantendo sua proposta de “formação de um novo homem e de uma nova comunidade”.