Superávit primário de R$ 86,9 bilhões em janeiro, arrecadação recorde em 32 anos e alerta sobre rombo fiscal de R$ 23,3 bilhões em 2026

Apesar do superávit primário, receita líquida cresceu 1,2% e despesas subiram 2,9%, com pressões em previdência e pessoal, e regras do arcabouço fiscal

O governo apresentou resultado positivo nas contas em janeiro, mas o dado traz sinais contraditórios sobre a saúde fiscal ao longo do ano.

Receita recorde ajudou a formar o saldo, enquanto aumentos em benefícios e pessoal pressionaram as despesas no mês.

Os números e as projeções foram divulgados pelo Tesouro Nacional, conforme informação divulgada pelo g1

Por que o resultado saiu positivo

Segundo o Tesouro Nacional, as contas do governo registraram um superávit primário de R$ 86,9 bilhões em janeiro, um reflexo da arrecadação extraordinária no começo do ano.

O aumento da receita foi determinante, e o Tesouro informou que a arrecadação federal foi a maior já registrada em todos os meses desde o início da série histórica da Receita Federal, em 1995, ou seja, em 32 anos.

Na prática, houve um aumento real de 1,2% na receita líquida, após as transferências constitucionais a estados e municípios, totalizando R$ 272,78 bilhões, segundo os dados oficiais.

Onde as despesas pressionaram o resultado

Ao mesmo tempo, as despesas também cresceram, reduzindo o fôlego do superávit, e o Tesouro apontou que as despesas totais do governo somaram R$ 185,89 bilhões em janeiro deste ano, com uma alta real de 2,9% no período.

O aumento real nas despesas concentrou-se em itens como despesas de benefícios previdenciários (+R$ 4 bilhões), explicado pelo aumento do número de beneficiários e pelos reajustes reais do salário-mínimo, e pessoal e encargos sociais (+R$ 3,3 bilhões), em função da comparação com janeiro de 2025.

Houve, por outro lado, queda em algumas despesas obrigatórias controladas pelo fluxo, com recuos de R$ 1,9 bilhão e R$ 1,5 bilhão, respectivamente, referentes a abono e seguro desemprego, informa o Tesouro.

Meta fiscal 2026 e o risco de rombo mesmo com superávit formal

Para 2026, a meta fiscal prevê um saldo positivo de 0,25% do Produto Interno Bruto (PIB), cerca de R$ 34,3 bilhões, segundo o arcabouço fiscal aprovado em 2023.

O texto estabelece um intervalo de tolerância de 0,25 ponto percentual, ou seja, a meta será considerada formalmente cumprida se o governo tiver saldo zero, ou se chegar a um superávit de R$ 68,6 bilhões.

O arcabouço permite ainda que o governo exclua desse cálculo R$ 57,8 bilhões em despesas, uso que pode mascarar a situação real das contas, e, na prática, a previsão é de que o governo tenha um rombo de R$ 23,3 bilhões nos cofres públicos em 2026, mesmo que apresente resultado positivo para fins de meta, conforme os números divulgados.

Se esses cenários se confirmarem, as projeções apontam que as contas públicas podem ficar negativas ao longo do terceiro mandato do presidente, afirmam as análises citadas na divulgação.

O que acompanhar a seguir

O comportamento da arrecadação nos próximos meses, e as decisões sobre exclusões de gastos no cálculo da meta, serão determinantes para saber se o superávit se sustenta ou se transforma em déficit ao longo de 2026.

Analistas e gestores públicos monitoram também os efeitos de reajustes e da evolução do emprego sobre a receita, além do ritmo das despesas com previdência e pessoal, para avaliar os riscos fiscais do ano.