quinta-feira, junho 4, 2026

Sushi com salmão cru: como Bjørn-Eirik Olsen e o Projeto Japão convenceram o Japão, salvaram a indústria norueguesa e transformaram a cena do sushi mundial

Share

Da rejeição inicial à adoção em massa, a jornada do salmão norueguês para ocupar cardápios de sushi no Japão, e o papel decisivo de marketing e acordos comerciais

Bjørn-Eirik Olsen, analista de mercado norueguês e apaixonado pelo Japão, foi peça-chave na introdução do sushi com salmão cru no país, em um processo que durou anos e envolveu mudanças culturais e comerciais.

O esforço fazia parte do Projeto Japão, iniciado em 1986 pelo governo da Noruega para ampliar exportações de peixe, mas encontrou resistência forte por parte de importadores e atacadistas japoneses.

O movimento de convencimento, as campanhas de branding e um acordo comercial no início dos anos 1990 acabaram por consolidar o salmão no sushi, conforme informação divulgada pelo g1

Origem do projeto e barreiras culturais

Em 1986, o governo norueguês lançou o Projeto Japão para expandir as vendas de pescado ao Japão, país com grande consumo de produtos do mar. A Noruega buscava novos mercados e viu potencial no segmento de sushi e sashimi.

O problema era cultural, e técnico, os japoneses rejeitavam o uso do salmão cru, por motivos de sabor, textura e risco de parasitas. Olsen recordou, “Quando apresentamos pela primeira vez o salmão para sushi ou sashimi a profissionais do setor, como atacadistas ou importadores, eles disseram: ‘Não, nós, japoneses, não comemos salmão cru'”.

Estratégia de marketing, renomeação e parcerias

Para mudar a percepção, a equipe norueguesa criou um novo nome, eliminando a palavra japonesa para salmão, shake, e adotando uma versão adaptada, Noruee saamon. Houve também campanhas com chefs de destaque, como Yutaka Ishinabe, e ações para reposicionar o produto.

A combinação de branding e apoio de chefs visava destacar qualidade e segurança do salmão de criação, tornando-o mais aceitável para o paladar japonês, e assim inserir o sushi com salmão cru no mercado de alto valor do sushi e sashimi.

Crise, acordo com a Nichirei e o ponto de virada

No início dos anos 1990, a produção norueguesa de salmão em cativeiro cresceu muito mais rápido que a demanda na Europa e nos Estados Unidos, levando a estoques encalhados e queda de preços.

Empresários cogitaram vender 12 mil toneladas para uso culinário tradicional no Japão, o que, segundo Olsen, destruiria a estratégia de posicionamento. Em vez disso, ele negociou com a empresa japonesa Nichirei a venda de 5 mil toneladas como salmão para sushi.

O acordo ajudou a estabilizar o setor e a consolidar a presença do salmão cru no mercado japonês, com Olsen afirmando, “Toda a indústria do salmão corria o risco de entrar em colapso”.

Popularização, correias transportadoras e legado

Outro fator decisivo foi a popularização de restaurantes de sushi com correia transportadora, mais acessíveis depois do estouro da bolha econômica no Japão. Crianças e famílias passaram a experimentar o peixe, acelerando a aceitação do sushi com salmão cru.

O sinal simbólico da adoção foi notado por Olsen em 1995, quando viu réplicas de niguiri de salmão em vitrines, evidência de que o ingrediente já estava consolidado no repertório dos estabelecimentos de sushi.

Hoje, o salmão é um dos ingredientes de sushi mais populares globalmente, e a Noruega segue como maior produtora por piscicultura, embora haja preocupações ambientais e impactos sobre peixes selvagens.

Bjørn-Eirik Olsen continua a viajar ao Japão e está escrevendo um livro sobre suas experiências, e diz, em tom pessoal, que observar “a cultura japonesa se unindo com parte da norueguesa me enche de alegria”.

Leia Mais

Fique por dentro