Como a tensão entre EUA e Irã influencia o dólar, o preço do petróleo e as bolsas globais, incluindo risco no Estreito de Ormuz, efeito na inflação e cenários para investidores
Nas últimas semanas, o aumento da pressão dos Estados Unidos sobre o Irã, com envio de porta-aviões e caças, colocou agentes do mercado financeiro em alerta.
Investidores avaliam que uma intervenção militar dos EUA, mesmo que não seja o cenário mais provável, pode mudar rapidamente o apetite por risco e os preços de commodities essenciais.
Neste texto explicamos como a tensão entre EUA e Irã tende a afetar o dólar, o petróleo e as bolsas, e quais são os fatores que podem limitar ou ampliar esses efeitos, conforme informação divulgada pelo g1.
Fortalecimento do dólar em cenário de risco
Em momentos de instabilidade geopolítica, a tendência é de **flight to quality**, investidores migrando para ativos considerados seguros. William Alves, estrategista-chefe da Avenue, resumiu a reação clássica do mercado: “É o que chamamos de ‘flight to quality’ (voo para a qualidade), movimento que tradicionalmente ocorre em momentos de guerra”.
O dólar se beneficia porque é uma moeda muito negociada e fácil de comprar e vender sem grandes distorções, portanto funciona como proteção quando investidores saem de aplicações mais arriscadas, como ações.
Além disso, a possibilidade de um bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do comércio mundial de petróleo, também tende a valorizar a moeda americana, pois aumentaria a percepção de risco global.
Pressão sobre o preço do petróleo e possíveis limites
O Irã é um dos maiores produtores do mundo, integrante da Opep, e qualquer risco a instalações de produção ou a rotas de escoamento, como o Estreito de Ormuz, tende a elevar preços.
Como explica o analista da Genial Investimentos, Vitor Souza, “Sempre que há tensão entre países produtores de petróleo, o mercado começa a considerar o risco de danos às estruturas de produção”, o que pode reduzir oferta e pressionar cotações.
Analistas estimam efeitos claros em caso de interrupção, Gabriel Mollo, da Daycoval Corretora, alerta que “uma interrupção na passagem de navios cargueiros pela região pode levar o barril de petróleo para a faixa de US$ 80. Hoje, está em torno de US$ 70”, potencialmente elevando inflação e taxas de juros.
No entanto, há limites no curto prazo, porque o mercado ainda opera com excesso de oferta global e o Irã já enfrenta restrições às suas vendas, fatores que podem conter altas abruptas.
Risco de queda nas bolsas e movimentos em ativos de risco
Com maior aversão ao risco, ações e investimentos em mercados emergentes tendem a sofrer, pois investidores reduziriam posições arriscadas e aumentariam reservas em dólar e ativos defensivos.
William Alves ressalta que ativos de risco, como ações e aplicações em emergentes, “tendem a reagir mal a eventos como uma guerra”, especialmente se houver alta do petróleo e elevação do dólar e dos juros.
As perdas nas bolsas vão depender da duração e intensidade do conflito, e se houver ataques a infraestrutura de energia ou cadeias produtivas, empresas de petróleo e gás podem ver oscilações maiores nas projeções de lucro.
Cenários prováveis e o que o mercado monitora
Especialistas consultados pelo g1 não consideram um conflito prolongado como cenário mais provável, mas não descartam uma intervenção limitada dos EUA. A análise envolve variáveis como intensidade das sanções, resposta iraniana e proteção naval à navegação.
Malek Zein, analista da Suno Research, observa que “Há, naturalmente, a questão do aumento da demanda. Mas, por outro lado, o Irã já é um país fortemente sancionado, e um eventual conflito não deve gerar o mesmo impacto que a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, por exemplo”.
Em resumo, a tensão entre EUA e Irã tende a fortalecer o dólar, pode pressionar o preço do petróleo e provocar quedas nas bolsas, mas a magnitude dos efeitos dependerá da duração do conflito, de danos à infraestrutura de energia e do comportamento das políticas externas e monetárias.
Investidores devem acompanhar de perto movimentos no Estreito de Ormuz, sinais de escalada militar, e comunicados oficiais, porque pequenos choques podem gerar volatilidade elevada em prazos curtos.