Trabalho escravo dispara no Brasil, 4.515 denúncias em 2025: Disque 100, Sistema Ipê e setores como construção e agronegócio evidenciam crise estrutural

Registro recorde de denúncias reforça caráter estrutural do trabalho escravo no país, com aumento de 14% em relação a 2024, e mostra concentração na construção civil e no agronegócio

O número de denúncias de trabalho escravo no Brasil bateu um novo recorde em 2025, em um sinal de que o problema segue sendo estrutural e disseminado em setores diversos.

Entre as formas relatadas estão trabalho escravo infantil, jornadas exaustivas, condições degradantes, servidão por dívida e restrição de liberdade.

Ao todo, foram 4.515 denúncias feitas ao longo do ano, segundo dados inéditos do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, conforme informação divulgada pelo g1.

O que os números mostram

Ao todo, foram 4.515 denúncias feitas ao longo do ano, de acordo com o MDHC, um aumento que confirma uma tendência de alta dos registros.

O número representa um aumento de 14% em relação a 2024, quando já havia sido batido um recorde histórico, com 3.959 denúncias.

O Brasil registrou em 2025 o maior número de denúncias de trabalho escravo e de condições análogas à escravidão da história, dizem os dados oficiais, e janeiro de 2025 foi o mês com maior número de registros desde a criação do Disque 100, com 477 denúncias.

Resgates e atuação do poder público

Os registros de denúncias se conectam com operações de fiscalização e resgate. Em 2024, 2.186 pessoas foram resgatadas em situações análogas à escravidão, segundo a Secretaria de Inspeção do Trabalho.

Desde 1995, quando o Estado reconheceu formalmente as formas contemporâneas de escravidão, cerca de 65,6 mil pessoas já foram resgatadas no país, resultado de mais de 8,4 mil ações fiscais realizadas até dezembro de 2024.

Setores com mais resgates e mudança no perfil

Em 2024, a construção civil e atividades do agronegócio aparecem entre as principais áreas com resgates. Segundo a Classificação Nacional das Atividades Econômicas, os números foram: Construção de edifícios (293 resgatados), Cultivo de café (214), Cultivo de cebola (194), Serviços de preparação de terreno, cultivo e colheita (120), e Horticultura, exceto morango (84).

Os dados também revelam que 30% dos trabalhadores resgatados em 2024 estavam em áreas urbanas, o que mostra o crescimento do problema fora do meio rural tradicional.

Canais de denúncia e desafios para combater

As autoridades destacam o papel dos canais de denúncia para identificar e combater o crime. O Disque 100 opera 24 horas, de todo o Brasil, e desde que passou a receber registros sobre trabalho escravo já contabiliza mais de 26 mil denúncias relacionadas a trabalho escravo e condições análogas à escravidão, segundo o ministério.

O governo também mantém o Sistema Ipê, canal online específico para denúncias de trabalho análogo à escravidão, que aceita comunicações anônimas com informações detalhadas sobre locais e práticas.

Especialistas afirmam que o aumento das denúncias pode refletir maior conscientização e confiança nos canais, mas alertam que os números continuam elevados, o que indica que o trabalho escravo persiste como um problema estrutural no país.

O que falta avançar

Além de ampliar a denúncia, analistas defendem mais investimentos em fiscalização, articulação entre órgãos e proteção às vítimas, para transformar registros em ações efetivas de prevenção e responsabilização.

Nesse cenário, a combinação entre dados públicos, canais ativos e operações de resgate continuará sendo essencial para reduzir a prática, e manter indicadores transparentes ajudará a monitorar progressos.