Trabalho escravo no Brasil bate novo recorde em 2025 com 4.515 denúncias, alta de 14%, e expõe padrão estrutural na construção civil e agronegócio
Dados inéditos do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania mostram crescimento contínuo de denúncias de trabalho escravo desde 2021, com mais de 65 mil resgatados desde 1995
O Brasil registrou, em 2025, o maior volume de denúncias relacionadas a trabalho escravo e condições análogas à escravidão da série histórica, segundo levantamento oficial.
Foram 4.515 denúncias em 2025, número que representa um aumento de 14% em relação a 2024 e mantém tendência de alta observada nos últimos anos.
Os dados cruzam informações sobre denúncias e resgates e indicam que o problema permanece como um desafio estrutural no país, com mais de 65 mil pessoas resgatadas desde 1995, conforme informação divulgada pelo g1.
Recordes recentes e séries históricas
O crescimento das denúncias tem sido contínuo: em 2024 foram 3.959 denúncias, em 2023 foram 3.430 denúncias, em 2022 houve 2.084 denúncias, e em 2021, 1.918 registros.
Antes da sequência atual, o maior número anual era de 1.743 denúncias em 2013, o que mostra que, em pouco mais de uma década, o volume anual mais que dobrou.
Janeiro de 2025 foi o mês com o maior número de registros já anotado desde a criação do Disque 100 em 2011, com 477 denúncias apenas no primeiro mês do ano.
Resgates e atuação do poder público
Os dados de denúncias dialogam com os resgates realizados pelas autoridades. Em 2024, 2.186 pessoas foram resgatadas em situações de trabalho análogo à escravidão, segundo a Secretaria de Inspeção do Trabalho.
Desde 1995, quando o Estado reconheceu formalmente formas contemporâneas de escravidão, cerca de 65,6 mil pessoas já foram resgatadas no país, resultado de mais de 8,4 mil ações fiscais realizadas até dezembro de 2024.
As operações são conduzidas principalmente pelo Grupo Especial de Fiscalização Móvel, coordenado pelo Ministério do Trabalho, com apoio das unidades regionais do órgão nos estados.
Setores mais afetados e mudança do perfil geográfico
Os resgates concentram-se em setores específicos da economia, com destaque para a construção civil e atividades agrícolas. Em 2024, os setores com maior número de trabalhadores resgatados foram: Construção de edifícios (293 resgatados), Cultivo de café (214), Cultivo de cebola (194), Serviços de preparação de terreno, cultivo e colheita (120), Horticultura, exceto morango (84).
Os dados também apontam mudança no perfil do problema, com 30% dos trabalhadores resgatados em 2024 estando em áreas urbanas, o que indica crescimento significativo do trabalho escravo fora do meio rural, historicamente associado a grandes propriedades agrícolas.
Como denunciar e o papel dos canais de denúncia
Autoridades destacam a importância dos canais de denúncia para identificar e combater casos. O Disque 100 funciona 24 horas, diariamente, e já recebeu mais de 26 mil denúncias relacionadas a trabalho escravo e condições análogas à escravidão desde que passou a registrar esse tipo de ocorrência.
O governo também mantém o Sistema Ipê, canal específico na internet para denúncias de trabalho análogo à escravidão, no qual o denunciante não precisa se identificar, apenas inserir o maior número possível de informações.
Especialistas alertam que o aumento das denúncias pode refletir, em parte, maior conscientização pública e ampliação dos canais de denúncia, mas os números elevados também mostram que o trabalho escravo segue sendo um problema estrutural no país.