Trem do Amor na Ucrânia: Mulheres Cruzam Zona de Guerra para Ver Maridos Militares em Reencontros Emocionantes e Perigosos

A perigosa e longa viagem atravessa a zona de guerra, mas é também “cheia de esperança”. Por BBC.

Sasha, de 22 anos, embarca em um trem noturno que corta a zona de guerra ucraniana, rumo a Kramatorsk, no leste do país. O destino é o reencontro com seu marido, Dmytro, que serve nas Forças Armadas. A viagem, exaustiva e arriscada, é movida pela esperança, como ela mesma descreve à BBC News: “A viagem de ida pode ser longa, mas é cheia de esperança”.

A situação atual torna a jornada ainda mais desafiadora. Desde novembro de 2025, a empresa ferroviária ucraniana suspendeu serviços em Donetsk devido à intensificação dos ataques à infraestrutura. O trem agora para em uma cidade a duas horas de ônibus de Kramatorsk, um trecho onde “tudo pode acontecer”, segundo Sasha.

Apesar dos perigos, a existência do transporte ferroviário é um farol de esperança. “É bom que os trens ainda estejam funcionando, porque isso nos dá esperança”, acrescenta Sasha. Essa conexão, mesmo precária, é vital para manter os ânimos e os laços familiares fortalecidos em um cenário de guerra.

Um plano adiado pela segurança

Sasha e Dmytro se casaram em agosto de 2025. Ele é militar de carreira há sete anos, e a família de Sasha também tem forte ligação com as forças de segurança. A possibilidade de Sasha se mudar para Kramatorsk foi discutida diversas vezes, mas a instabilidade da região, com bombardeios constantes e ataques de drones, impede o plano.

Mesmo em áreas consideradas relativamente mais tranquilas por Dmytro, a cidade é descrita como “muito barulhenta” e sob constante ameaça. A segurança do marido é a principal preocupação de Sasha, que encontra conforto em sua presença: “Quando ele dorme ao meu lado, não tenho medo de nada”.

Desafios e improvisos na rota da esperança

A viagem em si já é uma prova de resiliência. Trens de alta velocidade sofrem atrasos significativos e desvios devido a bombardeios. “Nunca se sabe ao certo quando se chegará. As pessoas descobrem conforme viajam”, explica um inspetor de trens.

Em uma ocasião, Sasha precisou improvisar. Após o trem chegar a Barvinkove, seu destino final, o ônibus de transferência partiu sem ela. Teve que convencer um taxista a levá-la até Kramatorsk, percorrendo cerca de três horas por uma estrada esburacada e em meio à neblina.

O reencontro de Polina e Andriy

Na plataforma de Barvinkove, a atmosfera é de cautela e apreensão. Polina, de 24 anos, desembarca para seu primeiro encontro em Kramatorsk com seu namorado, Andriy, que se alistou no exército quatro meses antes. Ela tomou um remédio para evitar chorar, relembrando a despedida difícil da última vez.

Relacionamentos à distância são um desafio constante. “Quando Andriy não responde, me preocupo imediatamente”, confessa Polina. A adaptação à presença física após longos períodos separados também é um aspecto da relação. O perigo é uma constante, com Polina ouvindo explosões na plataforma de Kiev logo após retornar de sua visita.

Evacuações e a busca por segurança

Os trens que levam casais para as cidades da linha de frente também transportam famílias em busca de segurança. Cidades como Kramatorsk e Sloviansk, a apenas 20 km da linha de frente, sofrem bombardeios constantes. Cerca de 200 pessoas chegam diariamente a centros de evacuação em busca de refúgio.

Enquanto alguns viajam em veículos próprios com planos definidos, outros aguardam os trens de evacuação da Ferrovia Ucraniana, que, mesmo com atrasos devido aos ataques russos, representam uma rota de fuga. “Já estou ansiosa pelo próximo reencontro”, diz Sasha, demonstrando a força que a impulsiona: “Simplesmente não há tempo para lágrimas ou desespero”.