Trump ameaça impor tarifas de 100% ao Canadá se fechar acordo com a China, risco a carros elétricos, exportações de canola e pressão sobre cadeias de suprimentos

A ameaça de tarifas de 100% surge após anúncio de parceria estratégica entre China e Canadá, incluindo liberação de até 49 mil carros elétricos chineses ao mercado canadense

O presidente dos Estados Unidos anunciou neste sábado que pode adotar uma retaliação comercial severa se o Canadá finalizar um acordo com a China.

A medida, segundo o governo americano, atingiria todas as importações canadenses, e provoca apreensão em setores como o automotivo e o agroexportador.

O cenário e os números deste movimento foram reportados em detalhe pela imprensa internacional, conforme informação divulgada pelo g1

O que Trump disse

Em publicação na sua plataforma, o presidente afirmou, sem margem para ambiguidade, “Se o Canadá fechar um acordo com a China, estará imediatamente sujeito a uma tarifa de 100% sobre todos os bens e produtos canadenses que entrarem nos Estados Unidos”.

Ao comentar a aproximação entre Ottawa e Pequim, Trump também escreveu que, se Carney “pensa que vai transformar o Canadá em um ‘porto de descarga’ para a China enviar mercadorias para os EUA, está muito enganado”.

Pontos do acordo China-Canadá e mudanças nas tarifas

Segundo as autoridades canadenses, o primeiro-ministro Mark Carney negociou com a China condições que incluem a entrada inicial de até 49 mil veículos elétricos chineses com tarifa de 6,1%, muito abaixo da alíquota anterior de 100%.

A cota, de acordo com o anúncio, deve aumentar gradualmente, chegando a cerca de 70.000 veículos em cinco anos. Em 2023, a China exportou 41.678 veículos elétricos para o Canadá, dado citado nas comunicações oficiais.

Carney afirmou que “Esse é um retorno aos níveis anteriores aos recentes atritos comerciais, mas sob um acordo que promete muito mais para os canadenses”, destacando a intenção de reatar laços comerciais com o segundo maior parceiro do país.

Impacto sobre exportações agrícolas e reação chinesa

O novo acordo também prevê reduções nas tarifas chinesas sobre produtos agrícolas canadenses. O Canadá espera que a China reduza tarifas sobre sementes de canola até 1º de março, para uma taxa combinada de cerca de 15%, ante os atuais 84%.

Carney disse que os ajustes devem desbloquear cerca de US$ 3 bilhões em pedidos de exportação para agricultores, pescadores e processadores canadenses. Em retaliação a medidas anteriores, a China havia imposto tarifas sobre mais de US$ 2,6 bilhões em produtos agrícolas canadenses.

As tensões já produziram efeito nas estatísticas, com uma queda de 10,4% nas importações de produtos canadenses pela China em 2025, segundo dados citados no anúncio.

Reações internas e considerações políticas

A aproximação com a China dividiu opiniões no Canadá. O primeiro-ministro provincial Doug Ford criticou o acordo, argumentando que o governo federal está abrindo mercado para uma “enxurrada de veículos elétricos baratos fabricados na China” sem garantias de investimentos na cadeia local.

Por outro lado, o próprio Trump chegou a dizer, em outra ocasião, “É isso que ele deveria estar fazendo. É bom que ele assine um acordo comercial. Se você conseguir um acordo com a China, deve fazer isso”, comentário feito à imprensa na Casa Branca.

O Ministério do Comércio da China informou que ajustará medidas antidumping sobre a canola e medidas antidiscriminatórias sobre alguns produtos agrícolas e aquáticos canadenses, em resposta à redução das tarifas do Canadá para veículos elétricos.

Analistas apontam que a ameaça de tarifas de 100% colocará o Canadá diante de um dilema entre reatar comércio com a China e preservar a relação comercial prioritária com os Estados Unidos, com impactos que podem atingir produtores rurais, montadoras e cadeias de suprimentos da América do Norte.