Trump ameaça impor tarifas de 100% se Canadá fechar acordo comercial com a China, cita ‘porto de descarga’ e promete taxar todas as importações canadenses

Ameaça ocorre depois de conversas em Pequim que incluem redução de tarifas sobre canola e cota para veículos elétricos chineses, e pode afetar comércio trilateral

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a ameaçar o Canadá com medidas comerciais duras caso Ottawa finalize um acordo com a China.

Trump afirmou que adotará medidas imediatas e severas, incluindo a aplicação de tarifas de 100% sobre produtos canadenses, se o acordo for fechado.

As declarações e os detalhes do novo acordo foram divulgados em Brasília e em Pequim, conforme informação divulgada pelo g1

O que Trump disse e a ameaça direta

Em postagem na plataforma Truth Social, Trump escreveu, “Se Carney ‘pensa que vai transformar o Canadá em um ‘porto de descarga’ para a China enviar mercadorias para os EUA, está muito enganado'”, e alertou que, “Se o Canadá fechar um acordo com a China, estará imediatamente sujeito a uma tarifa de 100% sobre todos os bens e produtos canadenses que entrarem nos Estados Unidos”.

Em outra ocasião, o próprio Trump disse aos repórteres na Casa Branca, “É isso que ele deveria estar fazendo. É bom que ele assine um acordo comercial. Se você conseguir um acordo com a China, deve fazer isso”, mostrando posição ambígua do Executivo norte-americano diante da aproximação canadense com Pequim.

O conteúdo do acordo China-Canadá e o ponto dos carros elétricos

O primeiro-ministro Mark Carney visitou Pequim, em sua primeira viagem de um líder canadense à China em oito anos, para negociar uma parceria estratégica que inclui a redução de tarifas sobre a canola e a entrada controlada de veículos elétricos chineses.

Segundo as informações, o Canadá permitirá inicialmente a entrada de até 49 mil veículos elétricos chineses com uma tarifa de 6,1%, nos termos de nação-mais-favorecida, ante a alíquota de 100% aplicada a esses carros por Justin Trudeau em 2024.

Carney disse que a cota aumentaria gradualmente, chegando a cerca de 70.000 veículos em cinco anos, e que o ajuste busca aprender com parceiros inovadores, acessar cadeias de suprimentos e aumentar a demanda local para construir um setor competitivo de veículos elétricos no Canadá.

Retaliações, números e impacto para exportadores

A aproximação com a China já teve custos, depois que, em retaliação às tarifas canadenses, a China impôs tarifas sobre mais de US$ 2,6 bilhões em produtos agrícolas e alimentícios, como óleo e farinha de canola, e sobre sementes de canola, o que levou a uma queda de 10,4% nas importações de produtos canadenses pela China em 2025.

O novo acordo prevê que a China reduza as tarifas sobre sementes de canola até 1º de março, para uma taxa combinada de cerca de 15% dos atuais 84%, e que farinhas de canola, lagostas, caranguejos e ervilhas tenham medidas antidiscriminatórias removidas a partir de 1º de março até pelo menos o final do ano.

Carney estimou que os acordos destravarão cerca de US$ 3 bilhões em pedidos de exportação para agricultores, pescadores e processadores canadenses, enquanto o Ministério do Comércio da China disse que estava ajustando medidas antidumping sobre a canola e medidas antidiscriminatórias sobre alguns produtos agrícolas e aquáticos canadenses.

Reações internas no Canadá e perspectiva regional

No Canadá, a decisão de abrir a porta para veículos elétricos chineses dividiu opiniões, com líderes provinciais, como o primeiro-ministro de Ontário, Doug Ford, criticando o acordo por supostamente atrair uma enxurrada de veículos baratos sem garantias de investimentos equivalentes na cadeia produtiva local.

Analistas e autoridades esperam agora para ver se a ameaça de tarifas de 100% por parte de Trump se traduzirá em ação concreta, e como isso poderá complicar a revisão do acordo comercial entre Estados Unidos, Canadá e México, em especial no setor automotivo e nas cadeias de suprimento regionais.