Trump e Políticos Americanos Acusam Nigéria de Perseguição a Cristãos: Entenda os Números e Controvérsias
Entenda os dados e as acusações de perseguição a cristãos na Nigéria, que geram debate político nos Estados Unidos
Donald Trump e outros políticos americanos têm levantado preocupações sobre a perseguição a cristãos na Nigéria, citando números alarmantes de mortes e destruição de igrejas. Essas declarações, que frequentemente mencionam milhares de vítimas cristãs, geraram um debate intenso sobre a situação no país africano.
A questão ganhou força após acusações de que militantes islâmicos estariam atacando sistematicamente cristãos. No entanto, a veracidade e a origem desses dados são complexas e alvo de controvérsia, com diferentes organizações apresentando números e interpretações distintas.
O governo nigeriano rebateu as alegações, classificando-as como uma “deturpação grosseira da realidade”. Segundo o governo, a violência atinge indiscriminadamente todos que rejeitam a ideologia dos terroristas, incluindo muçulmanos, cristãos e pessoas sem religião. Conforme informação divulgada pelo G1, o país enfrenta diversas crises de segurança com causas distintas, que não devem ser confundidas.
Origens dos Números e Divergências nas Estatísticas
Um dos principais focos das alegações é a organização International Society for Civil Liberties and Rule of Law (InterSociety). Em um relatório de 2023, a InterSociety afirmou que grupos jihadistas mataram mais de 100 mil cristãos nos 16 anos desde 2009, além de 60 mil “muçulmanos moderados”. No entanto, a falta de transparência nas fontes e métodos de cálculo da InterSociety dificulta a verificação desses números.
A organização, em resposta às críticas, declarou que “é quase impossível reproduzir todos os nossos relatórios e suas referências desde 2010”. A BBC, ao analisar reportagens citadas pela InterSociety, constatou inconsistências, com matérias originais não mencionando a identidade religiosa das vítimas ou apresentando números inferiores aos divulgados pela organização.
Outros grupos de pesquisa, como a Acled, que monitora a violência na África Ocidental, apresentam dados significativamente diferentes. A Acled estima que pouco menos de 53 mil civis, incluindo muçulmanos e cristãos, foram mortos em episódios de violência política direcionada desde 2009. Entre 2020 e setembro de 2025, a Acled identificou 384 incidentes em que cristãos foram especificamente alvos, resultando em 317 mortes, uma pequena fração do total.
Atores Envolvidos na Violência e o Debate sobre Motivação
Entre os responsáveis citados pelas mortes estão grupos militantes islâmicos como o Boko Haram e a Província do Estado Islâmico da África Ocidental. No entanto, a inclusão de pastores fulani, descritos pela InterSociety como “jihadistas”, é um ponto de controvérsia. Pesquisadores argumentam que os confrontos entre pastores fulani e comunidades locais estão, em geral, ligados a disputas por terra e água, e não a um conflito religioso.
O analista de segurança Christian Ani afirma que rotular os pastores fulani como jihadistas é um “grande exagero”, e que a violência está mais ligada a “elementos criminosos e fora da lei”. Confidence McHarry, analista sênior de segurança, reforça que as tensões étnicas e a disputa por recursos são os principais motores dos conflitos, embora ações contra locais de culto possam dar um caráter religioso à violência.
A InterSociety também menciona “bandidos”, frequentemente fulanis, envolvidos em sequestros e assassinatos de cristãos e muçulmanos no noroeste do país. A organização Open Doors, citada por Donald Trump, reportou 3.100 cristãos mortos entre outubro de 2023 e outubro de 2024, mas também registrou 2.320 muçulmanos mortos no mesmo período. A Open Doors aponta os “grupos terroristas fulani” como responsáveis por quase um terço das mortes de cristãos no Cinturão do Meio da Nigéria.
Campanhas Políticas e a Busca por Ajuda Externa
Políticos americanos, como o senador Ted Cruz, têm feito campanha sobre o tema, citando números alarmantes e acusando autoridades nigerianas de “ignorar e até facilitar o assassinato em massa de cristãos”. Trump ecoou essas declarações, descrevendo a Nigéria como um “país desonrado”.
O governo nigeriano nega essas acusações e afirma estar fazendo o possível para combater os grupos jihadistas, apesar das dificuldades em conter a violência. Autoridades nigerianas expressaram que veriam com bons olhos a possibilidade de ajuda dos Estados Unidos no combate aos insurgentes, desde que não seja unilateral.
A narrativa de “genocídio cristão” na Nigéria também tem sido promovida por grupos separatistas biafrenses, que admitem ter contratado empresas de lobby e se reunido com autoridades americanas para impulsionar essa causa. A InterSociety, por sua vez, já foi acusada pelas Forças Armadas nigerianas de ter ligações com o grupo separatista Indigenous People of Biafra (Ipob).