Um mês sem Maduro no poder, Venezuela vive ‘estabilidade tutelada’, reaproximação com EUA, abertura do petróleo, anistia e mudanças políticas

Análise das mudanças após a captura de Maduro em 3 de janeiro, o governo interino de Delcy Rodríguez, a reabertura do setor petrolífero e o impacto sobre presos políticos

Há um mês da operação que resultou na captura de Nicolás Maduro, a Venezuela vive um cenário novo, marcado por acordos externos e ajustes internos.

A vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu o comando e conjuga um discurso chavista com medidas exigidas pelos Estados Unidos.

As mudanças vão da política externa à lei do petróleo, e afetam presos políticos, as Forças Armadas e a economia, conforme informação divulgada pelo g1.

Como ocorreu a captura de Maduro e o impacto imediato

Nicolás Maduro foi capturado em uma operação dos Estados Unidos em 3 de janeiro, ele e sua esposa, Cilia Flores, foram levados para Nova York para ser julgados por tráfico de drogas.

A incursão ordenada por Donald Trump resultou na morte de quase 100 pessoas, entre civis e militares, e deixou um rastro de tensão no país.

A tomada de Maduro provocou realinhamentos rápidos dentro do governo e das Forças Armadas, sem, contudo, romper totalmente o aparato estatal.

Reaproximação com os EUA e a ideia de “estabilidade tutelada”

Delcy Rodríguez passou a liderar o Executivo de forma interina e manteve o chavismo, mas sob forte influência exterior.

O conceito de “estabilidade tutelada” foi usado por especialistas para descrever a situação, segundo avaliação do professor Guillermo Tell Aveledo, da Universidade Metropolitana.

Donald Trump chegou a dizer que “Tudo está indo muito bem com a Venezuela“, e convidou Rodríguez para a Casa Branca, enquanto o secretário de Estado americano, Marco Rubio, advertiu que ela pode ter o mesmo destino de Maduro se não cumprir metas.

A nova chefe da missão diplomática dos EUA, Laura Dogu, afirmou que a “transição” faz parte da agenda bilateral, sinalizando reaproximação diplomática, conforme informação divulgada pelo g1.

Abertura do setor petrolífero e números da recuperação

Uma reforma da lei do petróleo aprovada no período seguinte à captura revoga, na prática, partes da nacionalização de 1976 e do modelo estatista do chavismo.

A mudança permite que empresas privadas atuem sem a exigência de participação minoritária da estatal PDVSA, reduz royalties, simplifica impostos e elimina exclusividade na exploração primária.

O objetivo declarado é atrair petroleiras americanas, como a Chevron, e recuperar uma indústria que, segundo especialistas, precisa de cerca de US$ 150 bilhões (R$ 788 bilhões) para voltar a operar de forma relevante, dados citados por analistas ao g1.

Além disso, Trump assumiu o controle de parte das vendas de petróleo no mercado internacional, sem os descontos do embargo de 2019, e a primeira operação rendeu US$ 500 milhões (R$ 2,62 bilhões), conforme informação divulgada pelo g1.

Analistas, como Francisco Monaldi, disseram que a reforma é “a única maneira de obter investimentos relevantes“, indicando que os ajustes são vistos como essenciais para a recuperação.

Anistia, prisões e o clima de medo que persiste

Rodríguez anunciou uma anistia geral que precisa ser votada pelo Parlamento, e prometeu o fechamento do Helicoide, prisão frequentemente denunciada como centro de tortura.

Familiares de presos políticos comemoraram com gritos de “Liberdade, liberdade” ao receber a notícia, enquanto organizações alertam para o alcance incerto da medida.

Até segunda-feira, 687 pessoas continuavam detidas por motivos políticos, segundo a ONG Foro Penal, informação citada pelo g1.

Alfredo Romero, diretor da ONG, afirmou que “Anistia, em princípio, significa esquecimento, não perdão“, destacando preocupações sobre impunidade.

O medo imposto por Maduro diminuiu, mas não desapareceu, e a sociedade vive uma “liberalização tática“, nas palavras de analistas, com críticas que ainda são feitas em sussurros.

O que permanece igual e as incógnitas à frente

Embora Rodríguez tenha trocado ministros e chefs militares, figuras como Diosdado Cabello e Vladimir Padrino permanecem em seus postos por enquanto.

O partido governista mantém marchas e a propaganda estatal exibe vídeos e músicas pedindo a libertação de Maduro, e até drones projetaram imagens e trechos da declaração de Maduro ao tribunal, onde ele se definiu como “prisioneiro de guerra”.

O quadro político combina continuidade institucional do chavismo com concessões econômicas e diplomáticas, deixando em aberto se a estabilidade será duradoura ou sujeita a novas rupturas, conforme informação divulgada pelo g1.