Uva-passa no Natal: Por que a fruta polêmica é quase toda importada da Argentina e como ela é produzida?

O mistério da uva-passa: de onde vem a estrela polêmica do seu Natal e como ela se transforma

A uva-passa, ingrediente que divide opiniões em qualquer ceia de fim de ano, é um elemento presente em pratos tradicionais como o arroz, o panetone e a farofa. Sua inclusão ou exclusão gera debates acalorados, mas poucos se perguntam sobre sua origem e processo de produção.

A verdade é que a maior parte da uva-passa consumida no Brasil não é produzida em solo nacional. O clima e os altos custos de secagem desfavorecem a produção em larga escala em nosso país, tornando a importação a principal via de abastecimento.

Mas como essa fruta desidratada ganha seu lugar nas festas de fim de ano e quais são os segredos por trás de sua fabricação? Conforme informação divulgada pelo g1, vamos desvendar os bastidores da uva-passa, desde a colheita até a mesa do consumidor, explicando por que a Argentina se tornou a principal fornecedora para o Brasil.

Produção nacional limitada e a dependência da Argentina

A produção brasileira de uva-passa é considerada pequena, com o país importando a vasta maioria do que é consumido. Segundo o Ministério da Agricultura, de janeiro a novembro de 2024, o Brasil adquiriu mais de 20,7 mil toneladas, totalizando US$ 48 milhões. Desse montante, mais de 73% veio diretamente da Argentina.

A Embrapa explica que essa preferência pela importação argentina se deve, em grande parte, à facilidade de transporte e às isenções tarifárias dentro do Mercosul, bloco econômico do qual ambos os países fazem parte. A Argentina figura como o 10º maior produtor mundial de uva-passa.

O segredo está na colheita e nas propriedades nutricionais

Para garantir a qualidade da uva-passa, o ponto de colheita da uva é crucial. O pesquisador da Embrapa, Reginaldo Teodoro de Souza, enfatiza que a fruta deve ser colhida madura, assim como seria consumida fresca. Isso assegura a doçura e o sabor desejados; colheitas antecipadas podem resultar em uma fruta mais ácida.

É importante ressaltar que a uva-passa mantém as mesmas propriedades e benefícios nutricionais da uva fresca. A única diferença é a perda de água durante o processo de desidratação, o que faz com que a uva-passa pese apenas cerca de 33% do seu peso original.

Métodos de secagem: sol versus fornos

Existem duas maneiras principais de transformar uvas em uva-passa: a secagem ao sol e a secagem em fornos. O Brasil enfrenta desafios em ambas as modalidades em comparação com os grandes produtores mundiais.

A secagem natural ao sol exige um clima desértico, com calor intenso e umidade muito baixa, ideal para uma secagem rápida e eficiente. Embora o Nordeste brasileiro possua clima seco, a umidade ainda é um fator limitante em comparação com regiões desérticas. Durante a secagem ao sol, as uvas são dispostas em esteiras e precisam ser reviradas periodicamente.

Desafios econômicos e a viabilidade da produção brasileira

A secagem em fornos é uma alternativa, mas o elevado custo da energia elétrica no Brasil torna essa opção financeiramente inviável, segundo Souza. A uva-passa importada chega ao mercado a um preço mais competitivo, dificultando a produção nacional a custos que permitam a venda a preços similares.

Na secagem em fornos, as uvas são lavadas e tratadas para remover a oleosidade da casca, acelerando a desidratação. Algumas fábricas utilizam anidrido sulfuroso para fixar a cor, substância que evapora durante o aquecimento. O processo em forno dura aproximadamente 90 dias. Após ambos os métodos de secagem, as uvas-passas são lavadas, centrifugadas e selecionadas antes de serem comercializadas.