Trinta dias após a operação que prendeu Nicolás Maduro, a Venezuela sem Maduro convive com mudanças econômicas e políticas, pressão americana e promessas de libertações
A captura de Nicolás Maduro ocorreu em 3 de janeiro, em uma operação dos Estados Unidos que deixou quase 100 mortos e levou o ex-presidente a Nova York para ser julgado por tráfico de drogas.
Desde então, o comando do país passou para Delcy Rodríguez, que mantém o discurso chavista, mas cede a pressões dos EUA em medidas econômicas e diplomáticas.
As decisões vão de uma reforma da lei do petróleo a um anúncio de anistia geral, em um cenário que analistas definem como uma estabilidade tutelada, conforme informação divulgada pelo g1.
Como ocorreu a transição e quem ficou no poder
A operação que prendeu Maduro foi ordenada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e resultou na morte de quase 100 pessoas, entre civis e militares, segundo relato da cobertura inicial.
Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram levados a Nova York para responder a acusações, enquanto a vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu o governo de forma interina.
Rodríguez trocou ministros e oficiais de alta patente, mas figuras influentes como Diosdado Cabello e Vladimir Padrino permanecem por ora em posições-chave do regime.
O professor Guillermo Tell Aveledo descreveu o momento como uma “estabilidade tutelada“, ideia que ajuda a entender como o chavismo tenta preservar sua hegemonia sob influência direta de Washington.
Abertura do setor petrolífero e movimentação econômica
Uma das mudanças mais relevantes foi a aprovação de uma reforma da lei do petróleo, que revoga na prática a nacionalização de 1976 e elimina a exigência de participação minoritária obrigatória da estatal PDVSA.
A nova legislação reduz royalties, simplifica impostos e abre espaço para que petroleiras privadas, inclusive americanas como a Chevron, operem de forma independente.
Especialistas ouvidos pela imprensa estimam que a Venezuela precisa de cerca de US$ 150 bilhões para recuperar a indústria petrolífera, arruinada por corrupção e má gestão.
Além disso, a administração Trump assumiu o controle de parte das vendas de petróleo venezuelano no mercado internacional, e a primeira operação sob esse novo arranjo rendeu US$ 500 milhões.
Governo, propaganda e a promessa de anistia
Embora Rodríguez conduza mudanças alinhadas a exigências dos EUA, a máquina de propaganda chavista permanece ativa, com marchas organizadas e transmissões na TV estatal pedindo a libertação de Maduro.
No Forte Tiuna, complexo militar de Caracas, imagens de drones exibiram o rosto de Maduro e trechos de sua declaração ao tribunal de Nova York, em que ele se definiu como “prisioneiro de guerra”.
Rodríguez anunciou uma anistia geral, que precisa ser votada pelo Parlamento, e também comunicou o fechamento do Helicoide, prisão alvo de denúncias de tortura.
Familiares de presos políticos celebraram com gritos de “Liberdade, liberdade!” após o anúncio, mas ONGs alertam para limites da medida.
Segundo a ONG Foro Penal, 687 pessoas seguiam detidas por motivos políticos até a última contagem divulgada, e Alfredo Romero, diretor da ONG, afirmou que “Anistia, em princípio, significa esquecimento, não perdão“, rejeitando qualquer ação que gere impunidade.
O que mudou, e o que ainda segue igual
Em prazos curtos, a principal mudança visível é a reaproximação diplomática com Washington, com trocas de embaixadores e contato direto entre autoridades.
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, advertiu que Rodríguez pode ter o mesmo destino de Maduro caso não cumpra os objetivos de Washington, e a nova chefe da missão americana, Laura Dogu, disse que a “transição” está na agenda bilateral.
Por outro lado, a retórica chavista persiste, e o medo que marcou anos do governo Maduro diminuiu, mas não desapareceu, com críticas públicas ainda muito comedidas.
Analistas apontam para uma “liberalização tática”, em que o sistema recalibra o custo da repressão, e destacam que as mudanças econômicas são condicionadas à manutenção de controle político.
O cenário à frente depende da implementação da lei do petróleo, do alcance da anistia e da capacidade do novo comando de equilibrar concessões econômicas com manutenção de poder, num país que continua fragilizado e atento às movimentações externas e internas.