Venezuelanos fogem da crise e temem guerra com EUA, mas a principal preocupação é a sobrevivência diária no Brasil
Apesar da tensão crescente entre Estados Unidos e Venezuela, com envio de militares americanos e denúncias de ameaças à soberania por parte do governo de Nicolás Maduro, a realidade para os migrantes venezuelanos que chegam ao Brasil é outra.
Para muitos, a preocupação imediata não é um possível conflito armado, mas sim garantir o básico para a sobrevivência: comida, trabalho e educação para os filhos. A instabilidade política e econômica em seu país de origem força uma migração constante.
Conforme informações divulgadas pelo G1, a fronteira de Pacaraima, em Roraima, continua sendo a principal porta de entrada para os venezuelanos que buscam refúgio no Brasil, fugindo da crise que assola seu país desde 2015.
Medo de conflito, mas foco na sobrevivência
Davi Gonzales, um açougueiro de 23 anos, que já reside há cinco anos em Florianópolis, Santa Catarina, relata a dualidade de sentimentos ao cruzar a fronteira. Ele ouve comentários sobre a tensão com os Estados Unidos, mas sua luta diária é outra.
“Temos que nos preocupar com o que está acontecendo agora, nesse momento. A vida tá muito difícil. Agora eu volto para trabalhar no frigorífico e seguir minha vida”, afirma Davi, destacando a urgência em garantir o sustento.
A cozinheira Roxana Ampara, de 28 anos, chegou ao Brasil com seus dois filhos pequenos. Ela expressa o receio de uma guerra, temendo que o conflito possa se agravar, mas a necessidade de melhores oportunidades para as crianças a impulsionou a deixar seu estado, Anzoátegui.
“Sim, eu tenho medo… medo de acontecer uma guerra. Até uma terceira guerra mundial. Isso assusta muito. Às vezes o ambiente fica tenso. Há dias mais tranquilos e outros mais difíceis. Mas o clima está quente por lá”, relata Roxana.
Incertezas políticas e perseguição motivam a migração
O ex-policial Olman da Silva, 36 anos, que está em Roraima há uma semana, descreve a Venezuela como um lugar de medo e censura. Ele menciona que comentários políticos podem gerar dificuldades para as famílias, inclusive no acesso à comida.
Apesar da inquietação com a situação internacional, Olman confessa que a decisão de sair foi motivada pela exaustão de viver sem salário suficiente e sem perspectivas. “A intriga sempre surge: o que vai acontecer amanhã? O que vai vir depois? É difícil deixar sua terra. Só vem quem realmente não tem outra saída”, desabafa.
Rennie Castillo, 42 anos, técnico vindo do Estado de Aragua, viajou por dois dias para chegar a Pacaraima. Ele acredita que, em caso de conflito entre EUA e Venezuela, os mais vulneráveis serão os mais afetados.
“Se tiver problema entre EUA e Venezuela, quem paga é o inocente. Quem não tem nada a ver”, afirma Rennie. Ele também menciona o temor de homens em serem convocados para lutar sem saber o motivo, mas reforça que a economia instável foi o principal fator para sua migração.
Aumento de fluxo e perfis específicos na fronteira
Segundo a Plataforma de Coordenação Interagencial para Refugiados e Migrantes da Venezuela, da ONU, houve um aumento na entrada de servidores públicos venezuelanos, homens desacompanhados e indígenas em Pacaraima entre agosto e outubro. Este período coincide com as eleições municipais na Venezuela e o início das tensões com os Estados Unidos.
Um e-mail enviado pela plataforma, com acesso exclusivo do G1, sugere que esse aumento pode estar ligado às tensões militares entre os dois países, com indivíduos fugindo de perseguição e recrutamento forçado. Dados da plataforma indicam uma tendência de queda nas saídas de venezuelanos do Brasil nos meses de setembro e outubro entre 2022 e 2025, com uma queda de 17,5% no retorno à Venezuela em setembro de 2022 a 2025.
Em 2025, mais de 96 mil migrantes entraram no Brasil por Roraima, segundo a ONU, evidenciando a contínua necessidade de apoio e acolhimento aos que buscam recomeçar em um novo país, longe das dificuldades enfrentadas em sua terra natal e das incertezas geopolíticas.