Vergalho bovino, do prato afrodisíaco na China ao petisco para cães no Brasil, por que frigoríficos brasileiros produzem milhões e quem compra o produto
Da extração nos abates à venda para mercados asiáticos e ao setor pet, o vergalho bovino movimenta frigoríficos e gera receita, entre exportação e consumo interno
O vergalho bovino é extraído, higienizado, processado e vendido por frigoríficos de todo o país, em destinos que vão de restaurantes na Ásia a pet shops no Brasil.
Além da venda para mercados tradicionais, como Hong Kong e China, o produto também é transformado em petisco para cães e comercializado internamente, com preços que variam conforme o preparo.
As informações a seguir foram compiladas conforme informação divulgada pelo g1.
Como é extraído e processado
A extração do pênis bovino é descrita como simples por especialistas do setor, porque, ao contrário do humano, o pênis do boi é interno e pode chegar até um metro de comprimento.
Depois da retirada, a peça, chamada de vergalho, é higienizada, têm suas membranas retiradas e é embalada individualmente.
Para comercialização, a peça costuma ser desidratada, com a perda de peso de cerca de 500 gramas para 200 gramas por unidade.
Marcos de Paula, especialista em exportação da Sul Beef, resume a linha de aproveitamento das carcaças com humor, “Do boi a gente só não aproveita o berro. E se bobear, o patrão manda fazer um CD com ele”, brinca de Paula, ao explicar o reaproveitamento das partes do animal.
A empresa afirma que todos os frigoríficos do Brasil comercializam o pênis bovino, segundo o especialista em exportação da Sul Beef.
Para onde vai o vergalho
Não há dados específicos públicos sobre o volume exportado do vergalho, porque o produto aparece nas estatísticas oficiais dentro da categoria “miudezas comestíveis de bovinos frescas ou refrigeradas“, junto a outros órgãos como o rim, e, quando processado, pode entrar como “preparações alimentícias“.
Ao todo, o Brasil faturou US$ 231.752 com a venda de miudezas comestíveis de bovinos frescas ou refrigeradas para o exterior, segundo a Agrostat, plataforma do Ministério da Agricultura.
O valor da tonelada do produto em mercados como Hong Kong pode chegar a US$ 6 mil, segundo o Instituto Mato-grossense da Carne, Imac.
O frigorífico Sul Beef, do Mato Grosso, diz que mais de 90% de suas vendas de vergalho vão para o mercado asiático, e o restante abastece o setor pet, com foco no Brasil, no Paraguai e nos Estados Unidos.
Bruno de Jesus Andrade, diretor de Projetos do Imac, observa que o público consumidor tradicional, especialmente a população idosa na China, encolheu, porque, “os jovens ocidentalizaram o hábito de consumo”, tornando certos miúdos menos populares entre as gerações mais novas.
Produção, preços e mercado interno
O volume produzido acompanha o abate de machos no país, já que cada boi macho gera uma peça. “Por exemplo, no 3° trimestre de 2025, o Brasil abateu mais de 5 milhões de bovinos machos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Portanto, produziu mais de 5 milhões de vergalhos.”, detalha a fonte do levantamento.
No mercado interno, o preço médio do quilo chega a R$ 21, informa o Imac.
Em uma pesquisa online realizada pelo g1, foram encontrados vergalhos prontos para consumo do pet com preços que variam de R$ 12 até R$ 80, conforme peso e processamento.
Do afrodisíaco à ração gourmet para cães
Na China, o vergalho tem história de uso culinário e reputação ligada à medicina tradicional, que associa o consumo a aumento de desejo e prolongamento da ereção, o que explica parte da demanda nos restaurantes e casas especializadas.
No Brasil, o crescimento do mercado pet criou uma nova rota de destino para o produto, convertido em petisco natural, rico em nutrientes, e industrializado de forma prática, segundo analistas do setor.
Além do aproveitamento culinário e pet, outras partes do boi seguem em cadeias industriais distintas, como chifres para cuias ou extintores, sangue e glândulas para a indústria farmacêutica, e crinas para pincéis, mostrando como o setor busca aproveitar o animal por completo.
O vergalho bovino, portanto, percorre caminhos diferentes, entre tradição alimentar, exportação e o crescente mercado de cuidados com animais de estimação, e a trajetória depende tanto de hábitos culturais quanto de preços e demandas internacionais.