Mercado aproveita todas as partes, vergalho bovino vira petisco para cães e prato afrodisíaco na Ásia, com dados de exportação, preços e produção
O vergalho bovino, conhecido também como pênis bovino, é processado por frigoríficos de todo o Brasil e segue tanto para o mercado asiático quanto para o setor pet, com venda para lojas nacionais e internacionais.
O produto passa por higienização, retirada de membranas, embalagem individual e desidratação, etapas que reduzem o peso de cerca de 500 gramas para 200 gramas por unidade, tornando-o prático para comércio e transporte.
Conforme informação divulgada pelo g1.
Produção, processamento e aproveitamento
A extração do órgão é descrita como simples pela indústria, já que, diferente do ser humano, o pênis do boi é interno e pode chegar até um metro de comprimento, segundo especialistas do setor.
Após a retirada, o vergalho é higienizado, tem suas membranas retiradas e, depois, cada peça é embalada individualmente, com desidratação reduzindo o peso da peça para cerca de 200 gramas.
Marcos de Paula, especialista em exportação da Sul Beef, resume a lógica do aproveitamento, dizendo, “Do boi a gente só não aproveita o berro. E se bobear, o patrão manda fazer um CD com ele”.
Para onde vai o vergalho
Não há dados específicos só para vergalho nas estatísticas oficiais, pois o produto aparece em categorias gerais, como “miudezas comestíveis de bovinos frescas ou refrigeradas”, junto com outros órgãos.
O frigorífico Sul Beef, do Mato Grosso, divulgou que mais de 90% de suas vendas de vergalho vão para o mercado asiático, enquanto o restante é destinado ao setor pet, com foco no Brasil, Paraguai e Estados Unidos.
Ao todo, o Brasil faturou US$ 231.752 com a venda de miudezas comestíveis de bovinos frescas ou refrigeradas para o exterior, segundo a Agrostat, plataforma do Ministério da Agricultura.
Em Hong Kong, o valor da tonelada do produto pode chegar a US$ 6 mil, segundo o Imac, número superior ao de outros miúdos, como o omaso, que tem a tonelada comercializada por até US$ 5,5 mil, e o bucho por até US$ 4 mil.
Volumes, preços e mercado interno
No 3° trimestre de 2025, o Brasil abateu mais de 5 milhões de bovinos machos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Portanto, produziu mais de 5 milhões de vergalhos.
No mercado interno, o preço médio do quilo chega a R$ 21, informa o Imac, enquanto o produto pronto para consumo de pet varia conforme o peso, com vergalhos encontrados em pesquisa online de R$ 12 até R$ 80.
Empresas do setor destacam que a industrialização do vergalho como petisco atende à demanda por produtos naturais e práticos para alimentação canina, gerando novo fluxo de receita para frigoríficos.
Cultura, uso afrodisíaco e mudança de hábitos
Parte da demanda na Ásia vem do uso do vergalho como alimento tradicional e afrodisíaco, ligado a crenças da medicina tradicional chinesa sobre aumento da libido e prolongamento do tempo de ereção.
O chef Xiao Shan comentou sobre a crença local, segundo reportagem, afirmando que comida preparada com pênis de animais aumenta a libido.
Bruno de Jesus Andrade, diretor de Projetos do Instituto Mato-grossense da Carne (Imac), observa mudança geracional no consumo, dizendo, “É o mesmo caso, por exemplo, quando a gente pensa aqui no mercado nacional, alguns pratos mais tradicionais, como o caldo de mocotó e a buchada de bode, que usam muitos miúdos, já não são muito consumidos pelos jovens. Então o mesmo acontece na China. […] Os jovens ocidentalizaram o hábito de consumo”.
Para o diretor, o grande volume da produção brasileira hoje vai para petiscos para cachorros, e ele resume o motivo do sucesso entre donos de pets, “Ele é um produto natural, rico em nutrientes para o animal e acabou sendo industrializado de uma maneira muito prática”, afirma Andrade.
No conjunto, o aproveitamento do vergalho mostra a capacidade de geração de renda a partir de cortes e miúdos pouco valorizados, ao mesmo tempo em que reflete mudanças culturais e de consumo, tanto no Brasil quanto em mercados externos.