Sobreviventes de ataque dos EUA no Caribe tentaram se salvar por uma hora antes de serem mortos, revela vídeo exibido no Capitólio.
Um vídeo perturbador, exibido a portas fechadas para parlamentares americanos, detalha os momentos finais de dois homens que sobreviveram a um bombardeio inicial realizado pelas forças dos Estados Unidos no Caribe. As imagens mostram que os indivíduos estavam desarmados e lutaram por cerca de uma hora pela própria vida antes de serem alvejados novamente, segundo a agência Reuters.
As filmagens, que se tornaram objeto de investigação e debate acalorado em Washington, capturam a embarcação danificada após a primeira explosão. A fumaça se dissipando revela dois homens agarrados à proa, sem camisa e visivelmente desorientados. A falta de qualquer equipamento de comunicação aparente e a ausência de armas sugerem que eles não representavam uma ameaça imediata.
A decisão de prosseguir com o ataque, mesmo após a sobrevivência dos homens, foi tomada pelo almirante Frank Bradley, então chefe do Comando Conjunto de Operações Especiais. A suspeita de que a embarcação continha cocaína e estaria sendo mantida à tona por esse motivo levou à ordem de um novo bombardeio. Conforme relatado por fontes com acesso às imagens, o vídeo termina com o disparo de três munições adicionais contra o barco já avariado.
Ataque em meio à campanha antidrogas de Trump
O incidente ocorreu em 2 de setembro e faz parte de uma série de 22 ataques a navios de narcotráfico ordenados pelo governo Trump, com o objetivo declarado de conter o fluxo de drogas ilegais para os Estados Unidos. Essa campanha já resultou em 87 mortes confirmadas até o momento. A ação, contudo, tem sido alvo de questionamentos sobre sua legalidade e ética no direito internacional.
Reações divididas no Congresso americano
A exibição do vídeo gerou reações contrastantes entre os parlamentares. Democratas expressaram consternação e preocupação, classificando o ocorrido como um possível crime de guerra. O deputado Jim Himes, principal democrata na Comissão de Inteligência da Câmara, descreveu o vídeo como “uma das coisas mais preocupantes” que já viu. O senador Jack Reed, líder democrata na Comissão de Serviços Armados do Senado, também se disse “profundamente perturbado” e defendeu a divulgação pública das imagens.
Por outro lado, republicanos defenderam a ação militar. O senador Tom Cotton afirmou que o almirante Bradley agiu conforme o esperado, interpretando a cena como “dois sobreviventes tentando virar um barco carregado de drogas com destino aos Estados Unidos para que pudessem continuar lutando”. A Casa Branca, por meio de sua porta-voz Karoline Leavitt, confirmou o segundo bombardeio, atribuindo-o à legítima defesa e isentando o secretário de Guerra Pete Hegseth de responsabilidade direta, afirmando que a decisão partiu do almirante Bradley.
Direito da Guerra e críticas da ONU
O Manual de Direito da Guerra do Departamento de Defesa dos EUA proíbe explicitamente ataques contra combatentes incapacitados, inconscientes ou náufragos que não representem hostilidades ou tentem escapar. O manual cita o disparo contra sobreviventes de naufrágios como um exemplo de ordem “claramente ilegal” que deve ser recusada. A legitimidade dos ataques contra embarcações no Caribe tem sido questionada internacionalmente, com o alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, classificando-os como “execuções extrajudiciais”.
A investigação sobre o caso ganhou destaque após uma reportagem do jornal “The Washington Post” revelar o assassinato dos sobreviventes. Em resposta às acusações, o secretário de Guerra Pete Hegseth minimizou a situação em suas redes sociais, postando uma montagem com um desenho infantil para zombar das críticas.