Volta dos IPOs no Brasil, por que empresas brasileiras estão optando pela Nasdaq e Wall Street agora, entenda PicPay, Agibank, Selic e juros

PicPay inaugura retorno dos IPOs, empresas brasileiras escolhem mercados americanos por juros altos, menores fundos de ações e comparativo entre B3 e Wall Street

A oferta do PicPay nesta quinta-feira marca a primeira IPO brasileira em quatro anos, e traz de volta o debate sobre a volta dos IPOs no país.

Empresas como o PicPay e o Agibank optaram por listar ações nos Estados Unidos, em operações que expõem diferenças entre o mercado local e Wall Street.

O movimento tem relação direta com o cenário de juros e apetite por risco, conforme informação divulgada pelo g1.

Por que muitas empresas brasileiras escolhem os EUA

A decisão por listar ações na Nasdaq ou em outras bolsas americanas depende de vários fatores, incluindo setor, histórico da empresa e onde os concorrentes estão listados, segundo Leonardo Resende, superintendente de empresas e mercado de capitais da B3.

No caso do PicPay, a presença de concorrentes brasileiros já listados em Wall Street, como Nubank, PagSeguro, StoneCo e XP, pesa na decisão de buscar investidores internacionais.

Listagens nos EUA também podem oferecer maior liquidez e um leque maior de investidores focados em tecnologia e fintechs, além de visibilidade global, o que ajuda a explicar a preferência observada recentemente.

O impacto dos juros altos e a explicação dos especialistas

Um dos motivos centrais para a redução de ofertas no Brasil foi a alta dos juros domésticos, atualmente em 15% ao ano, o maior patamar em 20 anos, o que desvia recursos para renda fixa e reduz o apetite por risco.

Como disse Roderick Greenlees, diretor global de investment banking do Itaú BBA, “O que aconteceu no Brasil é que os juros subiram e não recuaram. Estamos falando de uma taxa real de dois dígitos, que é muito alta. Isso acaba inibindo investidores de fazer qualquer coisa que não seja comprar um instrumento de renda fixa”, conforme informação divulgada pelo g1.

Bruno Saraiva, corresponsável pela área de banco de investimentos do Bank of America no Brasil, também destaca a pressão sobre fundos de ações, “Essa é uma parte importante do quebra-cabeça que acabou se desfazendo nos últimos anos. À medida que os juros subiram, fundos de equity perderam muito dinheiro”, conforme informação divulgada pelo g1.

Os efeitos se acumulam, segundo o mercado, e resultaram na quase extinção de alguns fundos multimercados e de ações nos últimos dois ou três anos, reduzindo a demanda por novas ofertas.

Contexto histórico e números relevantes

Em 2021, quando o Brasil registrou mais de 40 IPOs, a Selic subiu de 2% em janeiro para 9,25% em dezembro, um aumento de 7,25 pontos percentuais naquele ano.

Desde então a taxa continuou subindo, até alcançar 15% em junho do ano passado, um aumento adicional de 5,75 pontos percentuais em relação a 2021, conforme informação divulgada pelo g1.

Enquanto isso, nos EUA, o ciclo de cortes de juros começou em setembro do ano passado, quando o Federal Reserve reduziu as taxas em 0,25 p.p. para a faixa de 4% a 4,25%, e desde então já houve mais duas reduções, com as taxas atualmente na faixa de 3,50% a 3,75%, conforme informação divulgada pelo g1.

O que esperar para os próximos meses no Brasil

Especialistas ouvidos apontam que a expectativa de início do ciclo de cortes pelo Banco Central do Brasil no primeiro trimestre traz otimismo cauteloso para a volta dos IPOs no país.

O boletim Focus indica que a Selic pode terminar o ano em 12,25% ao ano, uma redução de 2,75 pontos percentuais em relação ao patamar atual, e isso já seria suficiente para retomar algumas ofertas, na avaliação de Roderick Greenlees, conforme informação divulgada pelo g1.

Bruno Saraiva conclui que a recuperação será gradual, “Estamos cautelosamente otimistas para 2026, mas ainda será apenas o início de uma retomada, com poucas operações no Brasil”, conforme informação divulgada pelo g1.

Se houver uma agenda de reformas com ajuste fiscal em 2027 e uma trajetória contínua de queda dos juros, a expectativa é de retorno a um cenário de atividade muito maior no mercado de capitais brasileiro, conforme especialistas citados pelo g1.