Volta dos IPOs: por que empresas brasileiras escolhem abrir capital nos EUA agora, o papel dos juros em 15% e o que isso diz sobre o mercado de capitais

O retorno das ofertas públicas de ações, depois de quatro anos de hiato, ocorre em meio a juros elevados no Brasil, preferência por bolsas americanas e sinais de recuperação

A primeira oferta pública inicial de ações em quatro anos acontece nesta quinta-feira, com o banco digital PicPay listando na Nasdaq, e o Agibank anunciou IPO também nos Estados Unidos, sem data definida.

Empresas brasileiras têm optado por abrir capital lá fora por uma combinação de fatores, entre eles, a atratividade relativa da renda fixa no Brasil, em níveis que inibem o apetite por risco.

As informações acima constam conforme informação divulgada pelo g1

Por que escolhem os Estados Unidos

Muitas companhias brasileiras avaliam onde estão seus pares e investidores, e seguem a lógica de setor e tese de crescimento, incluindo histórico e concorrência no exterior.

No caso do PicPay, existem exemplos de fintechs brasileiras já listadas em Wall Street, como Nubank, PagSeguro, StoneCo e XP, o que influencia a decisão de buscar liquidez e visibilidade no mercado americano.

Leonardo Resende, superintendente de empresas e mercado de capitais da B3, destaca que “essa escolha depende de uma série de fatores, definidos caso a caso. Envolve uma análise do setor, da tese de investimento, do histórico da empresa e de onde os concorrentes estão listados, seja no Brasil ou em outros mercados”.

O papel dos juros altos na volta dos IPOs

Um motivo central para a preferência por listagem no exterior é o cenário doméstico de juros, atualmente em 15% ao ano, o maior patamar em 20 anos, o que torna a renda fixa muito atraente frente ao risco de ações.

“O que aconteceu no Brasil é que os juros subiram e não recuaram. Estamos falando de uma taxa real de dois dígitos, que é muito alta. Isso acaba inibindo investidores de fazer qualquer coisa que não seja comprar um instrumento de renda fixa”, afirma Roderick Greenlees, diretor global de investment banking do Itaú BBA.

Desde 2021, quando o país registrou mais de 40 IPOs, a Selic teve um movimento forte de alta. Só em 2021, a Selic subiu 7,25 pontos percentuais, de 2% em janeiro para 9,25% em dezembro, e desde então avançou até chegar a 15% em junho do ano passado.

Bruno Saraiva, corresponsável pela área de banco de investimentos do Bank of America no Brasil, resume o efeito sobre fundos de renda variável, com mais pressão para meios conservadores, “Essa é uma parte importante do quebra-cabeça que acabou se desfazendo nos últimos anos. À medida que os juros subiram, fundos de equity perderam muito dinheiro”.

Greenlees complementa que “Se você observar os fundos multimercados e, principalmente, os de ações, eles foram praticamente extintos nos últimos dois ou três anos. Muitos acabaram sendo descontinuados por causa desse cenário”.

Por que os EUA oferecem melhores condições agora

O ambiente monetário nos Estados Unidos mudou antes do Brasil, com o Federal Reserve iniciando um ciclo de cortes em setembro do ano passado, reduzindo as taxas em 0,25 p.p., para a faixa de 4% a 4,25%.

Desde então, o Fed realizou mais dois cortes, e atualmente as taxas estão na faixa de 3,50% a 3,75%, o que melhora a disposição de investidores a assumir risco e aumenta a demanda por ofertas de ações.

Listar nos Estados Unidos também pode significar acesso a uma base maior de investidores institucionais especializados em tecnologia e fintechs, além de maior liquidez para setores com forte concorrência global.

O que esperar para o mercado brasileiro

Há otimismo cauteloso sobre uma retomada dos IPOs no Brasil, caso o Banco Central inicie o ciclo de cortes já no primeiro trimestre, e com sinais de melhoria nas contas públicas.

Dados do último boletim Focus indicam que a Selic deve terminar este ano em 12,25% ao ano, uma redução de 2,75 p.p. em relação ao patamar atual, cenário que pode reativar algumas ofertas no mercado doméstico.

Bruno Saraiva afirma, “Estamos cautelosamente otimistas para 2026, mas ainda será apenas o início de uma retomada, com poucas operações no Brasil”.

Ele acrescenta também a visão de médio prazo, “Se houver uma agenda de reformas com ajuste fiscal em 2027, independentemente do governo, e uma trajetória contínua de queda dos juros, acredito que voltaremos a um cenário de atividade muito maior no mercado de capitais brasileiro”.

Em resumo, a volta dos IPOs tem início em ambiente global de menor aperto monetário e persiste a expectativa de que uma redução gradual da Selic retome parte do apetite por risco no Brasil, ao mesmo tempo em que empresas brasileiras seguem optando por bolsas americanas para captar recursos e ganhar escala.