PicPay faz a primeira oferta em quatro anos e outras companhias testam Wall Street, com a volta dos IPOs ligada a juros altos, liquidez e concorrência
A primeira oferta pública inicial de ações em quatro anos ocorre nesta quinta-feira, com o banco digital PicPay, e o Agibank anunciou um IPO, sem data definida.
Ambas escolheram listar nos Estados Unidos, em parte por condições de mercado mais favoráveis e por já haver pares do setor listados em Wall Street, como Nubank, PagSeguro, StoneCo e XP.
Esses movimentos refletem a combinação de juros elevados, menor apetite por risco e fluxo de investidores, conforme informação divulgada pelo g1.
Por que a Selic em 15% dificulta ofertas no Brasil
Um dos fatores centrais para a volta dos IPOs no exterior é a atratividade da renda fixa no Brasil, com a Selic em 15% ao ano, o maior patamar em 20 anos.
Como explicou Roderick Greenlees, diretor global de investment banking do Itaú BBA, “O que aconteceu no Brasil é que os juros subiram e não recuaram. Estamos falando de uma taxa real de dois dígitos, que é muito alta. Isso acaba inibindo investidores de fazer qualquer coisa que não seja comprar um instrumento de renda fixa”.
Com juros mais altos, fundos de ações e multimercados perderam recursos, o volume negociado encolheu e a demanda por novas ofertas caiu, reduzindo o apetite por risco necessário para sustentar IPOs locais.
Por que os EUA atraem empresas brasileiras
Nos Estados Unidos, ao contrário, o ciclo de cortes começou em setembro do ano passado, quando o Federal Reserve reduziu as taxas em 0,25 p.p., para a faixa de 4% a 4,25%, e desde então houve novos cortes, com as taxas hoje em 3,50% a 3,75%.
Além da diferença nas taxas, a decisão de listar na Nasdaq ou na Bolsa de Nova York depende do setor, da tese de investimento e de onde concorrentes estão listados, segundo Leonardo Resende, da B3.
Para fintechs e empresas de pagamentos, a visibilidade em Wall Street e a presença de investidores especializados tornam o mercado americano uma alternativa natural.
O que esperar para os próximos meses
Há sinais de melhora para o mercado brasileiro de IPOs, com a expectativa de cortes na Selic já no primeiro trimestre e o boletim Focus indicando que a taxa deve terminar o ano em 12,25% ao ano, uma redução de 2,75 p.p. em relação ao patamar atual.
Bruno Saraiva, do Bank of America, afirmou, “Essa é uma parte importante do quebra-cabeça que acabou se desfazendo nos últimos anos. À medida que os juros subiram, fundos de equity perderam muito dinheiro”.
Saraiva também diz que “Estamos cautelosamente otimistas para 2026, mas ainda será apenas o início de uma retomada, com poucas operações no Brasil”.
Implicações para empresas e investidores
Para companhias que buscam capital, a decisão entre B3 e mercados estrangeiros passa por custo de capital, perfil de investidores e comparáveis internacionais.
Se a trajetória de queda dos juros se confirmar e houver sinais fiscais e reformas que aumentem confiança, o Brasil pode retomar um fluxo maior de ofertas, mas analistas esperam uma retomada gradual.
Enquanto isso, a volta dos IPOs seguirá sendo coordenada por fatores macroeconômicos, escolhas estratégicas de cada empresa e pela preferência de investidores por mercados onde eles encontram maior liquidez e menos volatilidade relacionada a juros.