Entenda por que empresas brasileiras têm optado pelo mercado americano para abrir capital, como juros altos, menor apetite por risco e listagens de concorrentes influenciam a decisão
Três anos após o último grande movimento de ofertas públicas no Brasil, companhias nacionais voltam a anunciar IPOs, mas preferem Wall Street em vez da B3.
O banco digital PicPay realiza a primeira oferta pública inicial de ações em quatro anos, e o Agibank também anunciou IPO, ainda sem data definida.
O assunto ganhou relevo porque fatores como a Selic em 15% ao ano, menor apetite por risco e a presença de concorrentes listados nos EUA influenciam a decisão das empresas, conforme informação divulgada pelo g1.
Por que as empresas brasileiras estão indo para os EUA
Uma das explicações centrais para a decisão de abrir capital nos Estados Unidos é a atratividade maior do mercado americano no momento, em especial depois do corte de juros iniciado pelo Federal Reserve.
No caso do setor de fintechs e pagamentos, a presença de nomes como Nubank, PagSeguro, StoneCo e XP em Wall Street cria um ambiente comparável, onde investidores internacionais já conhecem as métricas e a concorrência.
Leonardo Resende, da B3, ressalta que a escolha depende de vários fatores, entre eles o setor, a tese de investimento e onde os concorrentes estão listados, o que explica decisões caso a caso.
Juros altos e a pressão sobre fundos de renda variável
O aumento persistente da taxa básica de juros no Brasil é apontado por especialistas como o principal motor da redução de IPOs na B3.
Roderick Greenlees, diretor global de investment banking do Itaú BBA, afirmou, “O que aconteceu no Brasil é que os juros subiram e não recuaram. Estamos falando de uma taxa real de dois dígitos, que é muito alta. Isso acaba inibindo investidores de fazer qualquer coisa que não seja comprar um instrumento de renda fixa”.
O avanço da Selic também tem uma linha do tempo clara: em 2021, a taxa passou de 2% em janeiro para 9,25% em dezembro, um salto de 7,25 pontos percentuais apenas naquele ano.
Desde então, a Selic continuou em alta até alcançar 15% em junho do ano passado, um aumento de 5,75 pontos percentuais em relação a 2021, o que contribuiu para a retração dos volumes em ações.
Bruno Saraiva, do Bank of America no Brasil, complementa, “Essa é uma parte importante do quebra-cabeça que acabou se desfazendo nos últimos anos. À medida que os juros subiram, fundos de equity perderam muito dinheiro”.
Com a renda fixa mais atrativa, muitos recursos deixaram de fluir para fundos de ações, e parte dos fundos multimercados e de ações foram encerrados, segundo Greenlees, “Se você observar os fundos multimercados e, principalmente, os de ações, eles foram praticamente extintos nos últimos dois ou três anos. Muitos acabaram sendo descontinuados por causa desse cenário”.
Por que o mercado americano parece mais favorável agora
Enquanto a Selic permaneceu em patamares elevados, o ciclo de corte de juros nos EUA já começou, com o Fed reduzindo a taxa para a faixa de 4% a 4,25% em setembro, e depois para 3,50% a 3,75% atualmente.
Essa diferença nos ciclos monetários aumenta o apetite de investidores internacionais por ativos de risco nos EUA, e cria janelas mais atraentes para empresas brasileiras captarem recursos fora do país.
Além disso, listar nos EUA pode dar maior visibilidade global, liquidez e um universo de investidores acostumados a avaliar empresas de tecnologia e serviços financeiros em escala internacional.
O que esperar para o mercado de IPOs no Brasil
A expectativa de diminuição gradual da Selic anima analistas e bancos de investimento, e pode estimular um número maior de ofertas na B3 nos próximos meses, embora provavelmente de forma gradual.
Dados do último boletim Focus indicam que a Selic deve terminar este ano em 12,25% ao ano, uma redução de 2,75 p.p. em relação ao patamar atual.
Para Roderick Greenlees, essa queda pode não trazer um retorno imediato ao fluxo de 2021, mas é suficiente para retomar algumas operações, pois representa um sinal positivo para o mercado.
Bruno Saraiva resume o sentimento do mercado, “Estamos cautelosamente otimistas para 2026, mas ainda será apenas o início de uma retomada, com poucas operações no Brasil”.
Especialistas lembram, ainda, que fatores políticos e reformas fiscais também influenciam a confiança dos investidores. Um roteiro de ajuste fiscal e queda contínua dos juros pode atrair mais empresas para a B3, e devolver escala ao mercado de capitais brasileiro.
Enquanto isso, a volta dos IPOs se materializa primeiro no exterior, com o movimento do PicPay e o anúncio do Agibank, simbolizando um momento de transição, entre a disponibilidade de capital internacional e a expectativa de recuperação gradual do apetite por risco no Brasil.