sexta-feira, julho 24, 2026

Foday Musa busca filhos vítimas de tráfico humano, QNET usada como fachada por gangues, Interpol e polícia de Serra Leoa fizeram batidas após família pagar US$25 mil

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Pai da Guiné viajou até Makeni com apoio da Interpol em Serra Leoa, participou de batida em imóvel onde jovens eram mantidos, e diz que quer apenas ver os filhos de volta

Um pai de família da Guiné enfrenta a dor de não ver os filhos há dois anos, enquanto busca respostas sobre um esquema de tráfico humano que usou o nome de uma empresa como fachada.

Ele viajou pessoalmente para Serra Leoa e acompanhou operações policiais, mas o desfecho segue incerto para parte das vítimas, enquanto poucas condenações foram registradas na região.

Relatos de resgate, depoimentos de vítimas e dados sobre processos judiciais mostram a complexidade do combate ao tráfico humano, conforme informação divulgada pelo g1.

A busca e a operação policial

O homem, identificado como Foday Musa, recebeu uma mensagem de voz do filho que o deixou em lágrimas, e descreve a experiência como insuportável, “É muito difícil ouvi-lo, Escutar sua voz dói”, segundo relatos reunidos pela reportagem.

Em agosto do ano passado, Musa viajou até Makeni, no centro de Serra Leoa, atendendo a um pedido da unidade da Interpol que investiga casos transfronteiriços de tráfico de pessoas.

Em uma batida policial, agentes encontraram dezenas de jovens vivendo em condições precárias, com bolsas e roupas espalhadas pelo chão, e relatos de menores de 14 anos entre os retidos.

O chefe de investigações da unidade contra o tráfico da Interpol em Serra Leoa, Mahmou Conteh, afirmou que “É muito fácil para esses traficantes atravessar cada uma das nossas fronteiras, nos pontos de cruzamento ilegais”, mostrando a facilidade de movimentação das quadrilhas.

Na operação, muitos resgatados eram guineanos, segundo os policiais, “A maioria é da Guiné”, disse Conteh ao relatar a procedência das vítimas encontradas no imóvel.

Como funciona o golpe e o papel de QNET

Criminosos prometem vagas de emprego no exterior em países como Estados Unidos, Canadá, Dubai e na Europa, usando o nome de uma empresa legítima, a QNET, como fachada.

A QNET, criada em Hong Kong, atua legalmente no comércio de produtos, mas gangues na África ocidental se apropriaram do nome para atrair vítimas, pedindo pagamentos altos para taxas e documentação, e depois prendendo as pessoas em casas ou levando-as a países vizinhos.

Familiares chegaram a entregar somas elevadas em busca da viagem prometida, no caso de Musa sua família pagou, segundo relatos, US$25 mil, cerca de R$130 mil, em inscrições e tentativas de resgate.

Em outro exemplo reunido pela reportagem, uma jovem identificada como Aminata foi informada de que precisava pagar US$1 mil, cerca de R$5,2 mil, e recrutar outras pessoas para seguir no programa, um mecanismo típico de aliciamento.

Depoimentos das vítimas

Aminata descreveu a rotina de quem fica retido, contando que no início havia comida e cuidados, mas que com o tempo as condições pioraram e surgiram exigências humilhantes.

Ela relatou que para sobreviver teve de se submeter a violência sexual, “Você precisa vender seu corpo e dormir com homens para conseguir dinheiro e poder se manter”, declaração que expõe a exploração sofrida por algumas vítimas.

Musa participou da batida do imóvel e ouviu de sobreviventes que seus filhos estiveram naquele local na semana anterior, uma pista que acendeu esperanças, ainda que temporárias.

Após as operações, 19 pessoas foram levadas de volta à Guiné, e a polícia informou ter realizado mais de 20 batidas no ano anterior, resgatando centenas de vítimas, segundo os relatos reunidos.

Contexto de impunidade e desafios

A investigação mostra que, apesar das prisões e batidas, poucas condenações resultaram desses casos, em parte por limitações de recursos e pela mobilidade dos traficantes.

O texto cita que “entre julho de 2022 (quando foi aprovada a lei contra o tráfico de pessoas em Serra Leoa) e abril de 2025, apenas quatro pessoas fora condenadas pelo crime.”, um dado que ilustra as dificuldades do sistema judicial para punir os responsáveis.

Musa voltou para a Guiné sem os filhos no final de setembro do ano passado, e a filha dele, quando liberada, preferiu não falar com o pai, possivelmente por vergonha, fenômeno comum entre vítimas.

O paradeiro do filho permanece desconhecido, e o pai segue na angústia, declarando “Meu coração está destruído, Não consigo parar de chorar, Se você olhar nos meus olhos, pode ver a dor”, palavras que sintetizam o impacto humano desse tipo de crime.

Especialistas e autoridades locais apontam a necessidade de campanhas de prevenção, maior cooperação regional e recursos para investigação, para que casos de tráfico humano não continuem a prosperar com impunidade.

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