Pai da Guiné viajou até Makeni com apoio da Interpol em Serra Leoa, participou de batida em imóvel onde jovens eram mantidos, e diz que quer apenas ver os filhos de volta
Um pai de família da Guiné enfrenta a dor de não ver os filhos há dois anos, enquanto busca respostas sobre um esquema de tráfico humano que usou o nome de uma empresa como fachada.
Ele viajou pessoalmente para Serra Leoa e acompanhou operações policiais, mas o desfecho segue incerto para parte das vítimas, enquanto poucas condenações foram registradas na região.
Relatos de resgate, depoimentos de vítimas e dados sobre processos judiciais mostram a complexidade do combate ao tráfico humano, conforme informação divulgada pelo g1.
A busca e a operação policial
O homem, identificado como Foday Musa, recebeu uma mensagem de voz do filho que o deixou em lágrimas, e descreve a experiência como insuportável, “É muito difícil ouvi-lo, Escutar sua voz dói”, segundo relatos reunidos pela reportagem.
Em agosto do ano passado, Musa viajou até Makeni, no centro de Serra Leoa, atendendo a um pedido da unidade da Interpol que investiga casos transfronteiriços de tráfico de pessoas.
Em uma batida policial, agentes encontraram dezenas de jovens vivendo em condições precárias, com bolsas e roupas espalhadas pelo chão, e relatos de menores de 14 anos entre os retidos.
O chefe de investigações da unidade contra o tráfico da Interpol em Serra Leoa, Mahmou Conteh, afirmou que “É muito fácil para esses traficantes atravessar cada uma das nossas fronteiras, nos pontos de cruzamento ilegais”, mostrando a facilidade de movimentação das quadrilhas.
Na operação, muitos resgatados eram guineanos, segundo os policiais, “A maioria é da Guiné”, disse Conteh ao relatar a procedência das vítimas encontradas no imóvel.
Como funciona o golpe e o papel de QNET
Criminosos prometem vagas de emprego no exterior em países como Estados Unidos, Canadá, Dubai e na Europa, usando o nome de uma empresa legítima, a QNET, como fachada.
A QNET, criada em Hong Kong, atua legalmente no comércio de produtos, mas gangues na África ocidental se apropriaram do nome para atrair vítimas, pedindo pagamentos altos para taxas e documentação, e depois prendendo as pessoas em casas ou levando-as a países vizinhos.
Familiares chegaram a entregar somas elevadas em busca da viagem prometida, no caso de Musa sua família pagou, segundo relatos, US$25 mil, cerca de R$130 mil, em inscrições e tentativas de resgate.
Em outro exemplo reunido pela reportagem, uma jovem identificada como Aminata foi informada de que precisava pagar US$1 mil, cerca de R$5,2 mil, e recrutar outras pessoas para seguir no programa, um mecanismo típico de aliciamento.
Depoimentos das vítimas
Aminata descreveu a rotina de quem fica retido, contando que no início havia comida e cuidados, mas que com o tempo as condições pioraram e surgiram exigências humilhantes.
Ela relatou que para sobreviver teve de se submeter a violência sexual, “Você precisa vender seu corpo e dormir com homens para conseguir dinheiro e poder se manter”, declaração que expõe a exploração sofrida por algumas vítimas.
Musa participou da batida do imóvel e ouviu de sobreviventes que seus filhos estiveram naquele local na semana anterior, uma pista que acendeu esperanças, ainda que temporárias.
Após as operações, 19 pessoas foram levadas de volta à Guiné, e a polícia informou ter realizado mais de 20 batidas no ano anterior, resgatando centenas de vítimas, segundo os relatos reunidos.
Contexto de impunidade e desafios
A investigação mostra que, apesar das prisões e batidas, poucas condenações resultaram desses casos, em parte por limitações de recursos e pela mobilidade dos traficantes.
O texto cita que “entre julho de 2022 (quando foi aprovada a lei contra o tráfico de pessoas em Serra Leoa) e abril de 2025, apenas quatro pessoas fora condenadas pelo crime.”, um dado que ilustra as dificuldades do sistema judicial para punir os responsáveis.
Musa voltou para a Guiné sem os filhos no final de setembro do ano passado, e a filha dele, quando liberada, preferiu não falar com o pai, possivelmente por vergonha, fenômeno comum entre vítimas.
O paradeiro do filho permanece desconhecido, e o pai segue na angústia, declarando “Meu coração está destruído, Não consigo parar de chorar, Se você olhar nos meus olhos, pode ver a dor”, palavras que sintetizam o impacto humano desse tipo de crime.
Especialistas e autoridades locais apontam a necessidade de campanhas de prevenção, maior cooperação regional e recursos para investigação, para que casos de tráfico humano não continuem a prosperar com impunidade.