Briga entre Trump e Jerome Powell, origem e riscos: investigação do DOJ eleva tensão sobre a independência do Fed e pressiona taxas, dólar e mercados
Investigação contra o presidente do Federal Reserve acresce disputa com Trump, levanta dúvidas sobre independência do banco central e pode impactar juros e confiança de investidores
O presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, confirmou que é alvo de uma investigação do Departamento de Justiça dos EUA, em meio à crescente tensão com o presidente Donald Trump.
Powell atribuiu a abertura do inquérito a uma tentativa de intimidação do governo sobre a política de juros do banco central, e afirmou que o caso coloca em risco a capacidade do Fed de atuar com base em evidências econômicas.
O episódio reacende o debate sobre a independência do Fed e sobre como pressões políticas podem afetar taxas de juros, o dólar e a confiança global nos mercados, conforme informação divulgada pelo g1.
Como começou a disputa
A contenda entre Trump e Powell escalou ao longo de 2024 e 2025 por causa de decisões sobre as taxas de juros. Trump intensificou críticas públicas, dizendo que o Fed estaria “muito melhor se cortasse as taxas” e, em outros momentos, chamando Powell de “estúpido” e “cabeça oca”.
O presidente também pressionou por cortes de juros afirmando que taxas menores ajudariam a economia a absorver tarifas sobre importações. A tensão aumentou com tentativas de remover membros do conselho do Fed e com sondagens sobre possíveis sucessores para o cargo de presidente da instituição.
Por que Powell está sendo investigado
A investigação, iniciada por procuradores federais, decorre do depoimento de Powell ao Comitê Bancário do Senado em junho, sobre a reforma da sede do Fed em Washington. Powell minimizou alegações de gastos excessivos, afirmando que o projeto era voltado à modernização e à redução de custos no longo prazo.
O caso citado envolve a reforma de US$ 2,5 bilhões (R$ 15,6 bilhões), incluindo críticas sobre supostos itens de luxo, como terraços, pisos de mármore e coleções de arte. A congressista Anna Paulina Luna anunciou que encaminharia ao DOJ uma acusação contra Powell por suposto perjúrio e declarações falsas.
Um porta-voz do Departamento de Justiça disse apenas que “a Procuradoria-Geral instruiu os procuradores federais a priorizar a investigação de qualquer abuso do dinheiro dos contribuintes”, sem comentar detalhes da apuração.
Powell vê investigação como ameaça à independência do Fed
Em mensagem em vídeo, Powell classificou a investigação como uma “ação sem precedentes”, e disse que “esta nova ameaça não tem que ver com meu depoimento em junho passado ou com a reforma dos prédios do Federal Reserve, esses são pretextos”.
O presidente do Fed insistiu que a disputa não é sobre questões prediais, mas sobre “saber se o Fed será capaz de continuar a definir as taxas de juros com base em evidências e condições econômicas ou se, em vez disso, a política monetária será dirigida por pressão política ou intimidação”.
Powell afirmou ainda que “o serviço público às vezes exige firmeza diante de ameaças”, e que seguirá no cargo com “integridade e o compromisso de servir ao povo americano”.
Riscos para mercados e para a credibilidade do banco central
A investigação e a retórica presidencial provocaram reação nos mercados. Após a divulgação do caso, o dólar recuou e o ouro chegou a bater o recorde de 4.600,33 dólares por onça, segundo as informações publicadas pela imprensa.
Analistas alertam que a pressão política sobre decisões de taxa pode reduzir a confiança dos investidores na dívida soberana dos EUA, e prejudicar o papel do dólar como moeda de reserva global. Para economistas, entregar o controle das taxas a decisões de natureza política aumenta o risco de inflação e instabilidade econômica.
Um grupo de presidentes de bancos centrais de vários países manifestou apoio a Powell, afirmando que “A independência dos bancos centrais é um pilar fundamental da estabilidade de preços, financeira e econômica, no interesse dos cidadãos a quem servimos”.
Enquanto isso, a Casa Branca negou envolvimento direto de Trump na investigação, e o próprio presidente disse não ter conhecimento do inquérito, ao mesmo tempo em que manteve críticas à gestão de Powell no Fed e às taxas atualmente praticadas.
O desenrolar do caso terá impacto político, e pode influenciar a condução da política monetária nos EUA, com efeitos em juros, fluxo de capitais e na confiança de mercados globais.