El Helicoide, de centro de tortura a complexo cultural: Delcy Rodríguez anuncia transformação após anistia, queda de Nicolás Maduro e investigação do TPI
El Helicoide, ícone arquitetônico que se tornou símbolo de terror e alvo do TPI, será convertido em centro esportivo, social, cultural e comercial
O prédio conhecido como El Helicoide inicia uma nova etapa após décadas de controvérsia e denúncias de abusos, com um anúncio oficial de mudança de uso e uma anistia ampla no país.
Localizado em Caracas, o edifício passou de projeto de shopping de luxo a sede de serviços de inteligência, e para muitos venezuelanos virou símbolo de dor e repressão.
O anúncio, feito pela presidente interina Delcy Rodríguez, vem em um momento de transição política e de investigações internacionais, e reacende o debate sobre memória e justiça, conforme informação divulgada pelo g1
Origem moderna e sonho interrompido
O El Helicoide foi idealizado na década de 1950, mais precisamente em 1956, durante a ditadura de Marcos Pérez Jiménez, como um centro comercial piramidal com hotel e heliporto.
O projeto trouxe a ideia do chamado “shopping drive-thru”, em que clientes poderiam dirigir até as lojas por rampas helicoidais, conceito exibido no Museu de Arte Moderna de Nova York, MoMA.
A construção nunca foi inaugurada conforme o planejado e ficou abandonada por décadas, até ser ocupada por autoridades policiais na década de 1980.
De sede de serviços de inteligência a símbolo de tortura
Em 1986, a polícia política, então chamada Disip, ocupou o espaço, que mais tarde passou a abrigar a Polícia Nacional e o Sebin, transformando o lugar em centro de detenção e interrogatório.
Para muitos, a palavra “Helicoide” é, “sinônimo de muita tristeza e de muitas torturas”, disse Raidelis Chourio, citado pela reportagem.
O ex-detento e diretor da ONG Vozes da Memória, Víctor Navarro, classificou o lugar como o “maior centro de tortura da América Latina” e relatou experiências pessoais, ao afirmar à AFP em 2023, “presenciei e, ao mesmo tempo, fui vítima de tortura. Colocaram uma arma na minha boca, carregada, destravada (…), batiam em mim”.
Denúncias, números e investigação internacional
Organizações de direitos humanos e instituições internacionais colocaram o El Helicoide no centro de investigações sobre crimes cometidos na Venezuela, com a ONU denunciando detenções arbitrárias e desaparecimentos forçados.
O Tribunal Penal Internacional, TPI, também abriu apurações sobre possíveis crimes contra a humanidade ocorridos em prisões venezuelanas, incluindo o Helicoide.
A ONG Foro Penal estimou que a Venezuela tenha ao menos 711 presos, dezenas deles no Helicoide, informação que figura entre as contagens citadas por defensores dos direitos humanos.
Revitalização anunciada e apelo por memória
A presidente interina Delcy Rodríguez anunciou que o edifício será transformado em um “centro esportivo, social, cultural e comercial”, proposta que sinaliza uma ruptura com o passado repressivo do local.
Após o anúncio e a declaração de anistia geral que abrange os 27 anos dos governos chavistas, familiares de presos políticos se reuniram nos arredores do Helicoide aos gritos de liberdade, segundo relatos de agências de notícias.
Defensores de direitos humanos, como Marino Alvarado, pedem que a transformação inclua um centro de memória, para que as violações não sejam esquecidas e para que haja registro público do que aconteceu ali.
A proposta de conversão levanta questões práticas e simbólicas sobre responsabilização, reparação e o papel da lembrança coletiva, em um país que agora enfrenta reformas e investigações internacionais.