Pai da Guiné procura filhos seduzidos por falso emprego do esquema QNET em Serra Leoa, família pagou US$ 25 mil, resgates revelam exploração e pouca punição

A ação de tráfico humano envolve falsas promessas de trabalho no exterior, uso do nome QNET como cobertura e rotas por pontos de fronteira, enquanto vítimas relatam abuso e vergonha

Foday Musa não vê os filhos há dois anos, ele recebeu mensagens de voz angustiantes e viajou até Serra Leoa na esperança de encontrá‑los.

Ao lado de equipes locais e da Interpol, participou de batidas em imóveis onde jovens eram mantidos, mas a busca não garantiu o reencontro imediato da família.

Conforme informação divulgada pelo g1

Como o esquema funciona e o uso do nome QNET

Criminosos prometem vagas nos Estados Unidos, Canadá, Emirados Árabes Unidos ou Europa, e pedem pagamentos adiantados por supostas taxas administrativas.

Na prática, diz a investigação citada pela reportagem, o trabalho nunca ocorre, vítimas são levadas a outro país ou mantidas em cativeiro até recrutar novas pessoas, e o nome QNET passa a ser usado como cobertura.

A própria empresa divulgou campanhas com o slogan “QNET contra os golpes”, negando ligação com o tráfico humano, enquanto grupos criminosos se aproveitam da marca para enganar candidatos a emprego.

Operações policiais e relatos encontrados em Makeni

Em Makeni, equipe da unidade contra o tráfico de pessoas da polícia local e da Interpol encontrou imóveis com pertences espalhados e cerca de 10 a 15 pessoas dormindo em cada quarto.

Entre os resgatados havia menores, alguns com apenas 14 anos, e dezenas de jovens oriundos de países como Guiné, Burkina Faso, Mali e Costa do Marfim.

A polícia informou ter realizado mais de 20 batidas no ano anterior, resgatando centenas de vítimas, e deteve 12 suspeitos, mas as condenações seguem sendo raras, segundo a apuração.

O drama de Foday Musa e depoimentos de vítimas

Musa conta que pagou, junto com a família, US$ 25 mil, cerca de R$ 130 mil, em inscrições e valores extras, na tentativa de que os filhos pudessem viajar e retornar em segurança.

Ele recebeu uma mensagem de voz do filho, com 76 segundos, em que o jovem chora e suplica por ajuda, texto que Musa descreve assim, “É muito difícil ouvi-lo. Escutar sua voz dói“.

Outro depoimento recolhido na operação, de uma jovem identificada como Aminata, descreve que após pagar US$ 1.000, cerca de R$ 5,2 mil, foi mantida em condições degradantes, obrigada a recrutar pessoas e, em certa fase, pressionada a “vender seu corpo” para sobreviver.

Contexto de impunidade e números

O combate ao tráfico humano enfrenta limitações de recursos, rotas por pontos de fronteira ilegais e dificuldade em levar acusados à condenação.

Segundo o levantamento citado na matéria, “entre julho de 2022, quando foi aprovada a lei contra o tráfico de pessoas em Serra Leoa, e abril de 2025, apenas quatro pessoas fora condenadas pelo crime“.

Musa não encontrou os filhos durante as batidas que acompanhou, a polícia afirmou que os libertou pouco depois, e a BBC confirmou que a filha retornou a outra região da Guiné sem querer dar entrevista, e o paradeiro do filho permanece desconhecido.

Para famílias como a de Musa, o desafio é duplo, recuperar entes queridos e enfrentar o estigma social que muitas vítimas sentem, mesmo após serem resgatadas.