Por que a volta dos IPOs acontece agora, PicPay na Nasdaq e por que empresas brasileiras escolhem bolsas dos EUA em vez da B3, e o que muda para investidores

Com a volta dos IPOs, empresas brasileiras buscam nos EUA acesso a investidores, menor competição com renda fixa e afinidade com pares setoriais listados em Wall Street

Três curtos eventos marcam a retomada, primeiro, o banco digital PicPay abre oferta inicial de ações após quatro anos sem IPOs brasileiros, segundo, o Agibank anunciou também sua intenção de listar, terceiro, ambas optaram por bolsas americanas.

Essa movimentação revela que decisões de abertura de capital envolvem juros, histórico da empresa e onde concorrentes estão listados, e não apenas vontade de negociar na B3.

As principais explicações para a escolha do mercado americano relacionam-se a juros domésticos elevados, apetite por risco e comparação setorial, conforme informação divulgada pelo g1

Por que listar nos Estados Unidos

Empresas como PicPay, e outras fintechs brasileiras, avaliariam a listagem na Nasdaq por ter investidores com maior apetite para tecnologia e pagamentos, e por reunir pares como Nubank, PagSeguro, StoneCo e XP.

Segundo Leonardo Resende, superintendente de empresas e mercado de capitais da B3, a escolha depende de muitos fatores, setor, tese de investimento, histórico da empresa e de onde os concorrentes estão listados, seja no Brasil ou em outros mercados.

O papel dos juros e do apetite por risco

Um dos fatores centrais é o nível da taxa básica de juros, a Selic. Hoje, as taxas de juros elevadas do país, atualmente em 15% ao ano, o maior patamar em 20 anos, tornam títulos de renda fixa muito atraentes.

Na explicação de mercado, isso reduz o fluxo para ações e pressiona fundos de equity. Roderick Greenlees afirma, “O que aconteceu no Brasil é que os juros subiram e não recuaram. Estamos falando de uma taxa real de dois dígitos, que é muito alta. Isso acaba inibindo investidores de fazer qualquer coisa que não seja comprar um instrumento de renda fixa”.

Greenlees também observa, “Se você observar os fundos multimercados e, principalmente, os de ações, eles foram praticamente extintos nos últimos dois ou três anos. Muitos acabaram sendo descontinuados por causa desse cenário”.

Contexto internacional e seletividade

Enquanto o Brasil enfrenta juros elevados, o ciclo de cortes do Federal Reserve tornou os mercados americanos mais receptivos. O Fed iniciou cortes em setembro do ano passado, reduzindo as taxas em 0,25 p.p., para a faixa de 4% a 4,25%, e desde então fez mais dois cortes, estando atualmente na faixa de 3,50% a 3,75%.

Esse ambiente externo cria janelas atraentes para empresas brasileiras que querem combinar liquidez internacional com avaliação comparável aos seus pares globais.

O que esperar para o mercado brasileiro

Analistas consultados pelo g1 veem sinais de melhora com perspectivas de queda na Selic, embora ainda moderada. O boletim Focus aponta que a Selic deve terminar o ano em 12,25% ao ano, uma redução de 2,75 pontos percentuais em relação ao patamar atual.

Bruno Saraiva diz, “Estamos cautelosamente otimistas para 2026, mas ainda será apenas o início de uma retomada, com poucas operações no Brasil”.

Saraiva acrescenta uma condição para uma recuperação mais ampla, “Se houver uma agenda de reformas com ajuste fiscal em 2027, independentemente do governo, e uma trajetória contínua de queda dos juros, acredito que voltaremos a um cenário de atividade muito maior no mercado de capitais brasileiro”.

Na prática, a volta dos IPOs tende a ser gradual. Com juros mais baixos, e sinais de compromisso fiscal, algumas empresas podem voltar à B3, mas muitas seguirão avaliando os mercados externos conforme o setor e a base de investidores desejada.