Trump usando o petróleo para pressionar Cuba: por que ‘a ilha não conseguirá sobreviver’ e os 4 riscos que podem provocar uma crise humanitária

Medida assinada por Trump ameaça aplicar tarifas a países que vendem petróleo a Cuba, pressionando fornecedores e elevando o risco de colapso de serviços essenciais e da economia

A ordem executiva assinada por Donald Trump desta vez aponta diretamente para o fluxo de combustível destinado a Cuba, em uma tentativa de reduzir o apoio externo ao governo da ilha.

Especialistas alertam que a estratégia de pressionar países fornecedores pode transformar uma crise energética em uma crise humanitária, com impacto em hospitais, transporte e abastecimento de alimentos.

Nas próximas seções explicamos em quatro pontos como a medida funciona, quais são os números que mostram a gravidade da situação, o papel do México nesse cenário, e o risco de colapso econômico e social em Cuba, conforme informação divulgada pelo g1

1. O que diz a ordem executiva e o argumento de segurança

A ordem declara estado de emergência nacional, alegando que “a situação em relação a Cuba constitui uma ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional e à política externa dos Estados Unidos”.

O documento acusa Havana de “desestabilizar a região” por meio de alianças com Rússia, China, Irã e grupos como Hamas e Hezbollah, e busca dissuadir terceiros de vender petróleo à ilha sob a ameaça de tarifas mais altas.

Como explica o correspondente da BBC News, Will Grant, “Ao declarar estado de emergência em relação a Cuba, o governo Trump está argumentando, na prática, que o fornecimento de energia da ilha agora é uma questão de segurança nacional dos EUA”.

2. A crise do petróleo em números

Cuba precisa de cerca de 110 mil barris de petróleo por dia e produz aproximadamente 40 mil, o que a torna fortemente dependente de importações.

Segundo dados da empresa belga Kpler, publicados pelo Financial Times, até o momento, em 2026, Cuba recebeu apenas um carregamento, do México, de 84 mil barris de petróleo, o equivalente a menos de 3.000 barris por dia.

A mesma fonte indica que, com as remessas interrompidas da Venezuela após a intervenção dos EUA, a ilha ficou com petróleo suficiente para apenas 15 a 20 dias.

O presidente dos EUA declarou em 11 de janeiro, “Não haverá mais petróleo nem dinheiro para Cuba”, e em outro momento afirmou que “a ilha não conseguirá sobreviver” se os fluxos de combustível forem cortados.

3. O papel do México e o risco de isolamento

Com a queda das remessas venezuelanas, o México passou a ser a principal esperança de Cuba, tendo enviado cerca de 12 mil barris por dia durante 2025, segundo dados da Kpler.

A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, disse que os embarques têm motivação humanitária, para evitar a interrupção de hospitais e serviços essenciais, e afirmou que “Impor tarifas aos países que fornecem petróleo para Cuba pode desencadear uma crise humanitária de grandes proporções”.

Ao mesmo tempo, Sheinbaum pediu que o Ministério das Relações Exteriores busque esclarecimentos com os EUA sobre o alcance da ordem, por temer represálias que afetem o México, e reconheceu que os embarques representam menos de 1% da produção total do país.

4. Consequências para a população e risco de colapso

Os efeitos da escassez já são sentidos diariamente em Cuba, com apagões que duram horas, longas filas por gasolina, transporte e alimentos caros, e serviços públicos em colapso.

O economista Omar Everleny afirmou à BBC Mundo que “Em muitas partes do país, os apagões duram pelo menos 20 horas por dia. Isso significa que eles só têm eletricidade por quatro horas, e essa é uma situação difícil”.

O governo cubano alerta que o “bloqueio total do fornecimento de combustível” pode submeter o povo a “condições de vida extremas”. O presidente Miguel Díaz-Canel reagiu chamando a medida de tentativa de “estrangular a economia cubana”, e descreveu o governo dos EUA como “fascista, criminoso e genocida”.

Além dos apagões, a economia enfrenta recessão prolongada, queda da produção industrial, paralisação agrícola por falta de fertilizantes e combustível, e uma crise de abastecimento de medicamentos em meio a surtos de dengue, zika e chikungunya.

O que está em jogo

A estratégia de Trump usando o petróleo para pressionar Cuba visa limitar os recursos do governo cubano e reduzir seu apoio político, mas analistas e autoridades, incluindo a própria Cuba e o México, alertam que a ação pode provocar uma crise humanitária com impacto direto na população, mais do que no regime.

Nos Estados Unidos, o Secretário de Estado Marco Rubio disse perante a Comissão de Relações Exteriores do Senado, “Gostaríamos muito de ver uma mudança de regime, mas isso não significa que vamos provocá-la”, e acrescentou, “Não há dúvida de que seria muito benéfico para os Estados Unidos se Cuba não fosse mais governada por um regime autocrático”.

O cenário é de alta incerteza, com a oferta de combustível em níveis críticos, decisões soberanas de países fornecedores em jogo, e o risco real de que medidas destinadas a pressionar o governo cubano acabem por agravar o sofrimento da população.