Acordo Mercosul-UE pode baratear vinhos europeus e ampliar oferta de chocolates premium no Brasil, entenda prazos, tarifas, ganhadores e riscos
Acordo Mercosul-UE pode reduzir tarifas gradualmente, zerando imposto sobre vinhos em até 12 anos e chocolate em até 15 anos, mudando oferta e preços no Brasil
Se o tratado entre o Mercosul e a União Europeia entrar em vigor, consumidores no Brasil podem ter acesso a uma gama maior de vinhos europeus e a mais marcas de chocolates premium.
A redução das tarifas será feita de forma escalonada ao longo de anos, e o efeito sobre preços e disponibilidade deve acontecer de maneira gradual, segundo analistas e negociadores envolvidos.
O texto a seguir detalha prazos, impactos por setor e quem tende a ganhar ou perder com a mudança, conforme informação divulgada pelo g1.
Como as tarifas vão mudar e o que isso significa
Atualmente, os países do Mercosul, bloco formado por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, pagam uma taxa de 27% para importar vinhos da Europa.
Caso o acordo entre em vigor, essa taxa será zerada entre 8 a 12 anos, a depender do produto, disse o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) ao g1.
Já as importações de chocolate, hoje taxadas em 20%, terão dois prazos, uma parte dos produtos terá tarifa zero em 10 anos e a outra, em 15 anos.
O acordo também prevê tarifa zero para a importação de azeite de oliva da União Europeia, No entanto, desde março deste ano, o governo brasileiro já isentou o produto do imposto de importação.
Por que o vinho europeu pode ficar mais barato
A Europa concentra os maiores produtores globais, como Itália, França e Espanha, por isso é possível encontrar vinhos muito bons por dois, três, quatro euros, segundo o professor Roberto Kanter, da FGV.
Com tarifas altas, a importação acaba nivelando preços, e a redução gradual deve estimular empresas brasileiras a diversificarem compras, trazendo rótulos europeus mais acessíveis ao mercado doméstico.
Como diz Kanter, “Eu acredito que o consumidor brasileiro vai ser beneficiado. Ele vai passar a ter acesso a uma oferta muito maior de vinhos de qualidade média, a preços extremamente competitivos, muito mais do que você encontra hoje no mercado”, o que deve ocorrer ao longo do processo de redução tarifária.
Marcos Troyjo, que liderou as negociações entre 2019 e 2020, acrescenta que a vigência gradual da tarifa dá tempo para a produção brasileira se adaptar, e que o acordo pode provocar um choque de expansão setorial.
Como afirmou Troyjo, ‘Alguém pode dizer: ‘poxa, mas vai ter muita competição do vinho europeu’. Mas na realidade, quando você tem uma um acordo desse, os consumidores passam a tomar mais vinho, você aumenta o número de fornecedores de garrafas, de rótulos, de rolhas’, diz Troyjo.
O que muda para os chocolates, e quem se beneficia
No caso do chocolate, o Brasil já tem uma indústria forte e diversificada, com marcas populares e premium. A menor tarifa deve facilitar a entrada de marcas estrangeiras de alto padrão que hoje não operam no país.
Segundo Kanter, as principais beneficiadas serão as importadoras e as marcas que hoje concentram vendas nas capitais, pois a redução de custos e o aumento de margem podem viabilizar expansão de lojas e canais de distribuição.
Ele observa que, embora possa haver algum barateamento pontual na categoria de chocolates semipremium, o preço não será o principal impacto, e produtos de primeira linha continuarão posicionados como artigos premium.
Kanter resume, “Quem vai se beneficiar é a classe A, que em vez de comprar chocolate na Fauchon, vai poder comprar no Iguatemi, em São Paulo”, e acrescenta que o preço de marcas de luxo não cairá ao nível de chocolates populares nacionais.
Efeitos para a indústria, concorrência e consumidores
A redução gradual das tarifas tende a ampliar a oferta, aumentar a concorrência e criar oportunidades para novos negócios em distribuição, comércio e serviços relacionados, como someliers e estabelecimentos especializados.
No curto prazo, os efeitos nos preços ao consumidor serão limitados, porque a redução ocorre ao longo de anos e porque fatores como custos logísticos, câmbio e estratégias de posicionamento de marca seguem influenciando preço final.
Para os setores, a agenda traz desafios e oportunidades, a depender da capacidade de produtores e importadores de se adaptar ao novo cenário, e da resposta do mercado brasileiro à maior oferta de rótulos e marcas.
As informações e dados desta reportagem foram obtidos a partir da cobertura do g1, com trechos e números mencionados nas declarações de fontes citadas.