Acordo UE-Mercosul coloca o Brasil no centro das trocas comerciais, revela assimetria, e destaca dependência em tecnologia, energia e alimentos para a União Europeia

Assinado após mais de 25 anos de negociações, o pacto reduz tarifas e expõe que o Brasil responde por mais de 82% das importações europeias originadas no Mercosul, e por cerca de 79% das exportações do bloco

O novo acordo entre União Europeia e Mercosul aproxima cadeias produtivas de dois continentes, e ao mesmo tempo deixa clara uma relação econômica desigual.

Enquanto a UE garante acesso a insumos e tecnologia de alto valor, o Brasil aparece como fornecedor-chave de matérias-primas, energia e alimentos, com grande concentração do comércio entre os blocos.

Os efeitos vão de queda de custos para produtores brasileiros a ganhos estratégicos para países europeus que buscam diversificação de fornecedores, conforme informação divulgada pelo g1.

Como a dependência tecnológica do Brasil molda a negociação

O fluxo de importações brasileiras da União Europeia está concentrado em poucos parceiros e em bens de maior valor tecnológico, essenciais para indústria e serviços públicos.

Em 2025, Alemanha, França e Itália responderam juntas por cerca de 57% dos US$ 50,3 bilhões que o Brasil importou da UE, sendo: Alemanha, US$ 14,4 bilhões, 28,6%, França, US$ 7,2 bilhões, 14,3%, e Itália, US$ 7,1 bilhões, 14%.

Entre os principais itens importados pelo Brasil estão medicamentos e produtos farmacêuticos, US$ 8,1 bilhões, autopeças, US$ 2,5 bilhões, motores e máquinas não elétricas, US$ 2,4 bilhões, aeronaves, US$ 1,2 bilhão, equipamentos de medição, verificação e controle, US$ 1,4 bilhão, e compostos químicos, US$ 1,41 bilhão.

O comércio concentrado mostra a dependência brasileira por tecnologias e insumos que barateiam custos industriais, e que, segundo especialistas, tendem a ficar mais acessíveis com a redução tarifária.

José Pimenta, diretor de Comércio Internacional e sócio da BMJ Consultoria, afirmou, “Em alguns casos, o produto chega a pagar 35% ou 40% sobre o valor. Um insumo que custa R$ 100 mil pode chegar a R$ 140 mil na mão do produtor. Com a retirada das tarifas, esse mesmo fertilizante poderia chegar por algo em torno de R$ 100 mil.”

O que a União Europeia ganha com o papel central do Brasil

Para a UE, o Brasil é fornecedor de commodities e insumos industriais necessários às suas cadeias produtivas e ao abastecimento energético e alimentar.

Dos US$ 49,81 bilhões exportados pelo Brasil ao bloco em 2025, 73% tiveram como destino cinco países: Holanda, US$ 11,7 bilhões, 23,6%, Espanha, US$ 8,8 bilhões, 17,7%, Alemanha, US$ 6,5 bilhões, 13,1%, Itália, US$ 5,3 bilhões, 10,8%, e Bélgica, US$ 4 bilhões, 8,1%.

As principais exportações brasileiras para a UE incluem óleo bruto de petróleo, US$ 9,8 bilhões, café não torrado, US$ 7,1 bilhões, farelo de soja para alimentação animal, US$ 4 bilhões, minérios de cobre, US$ 3 bilhões, celulose, US$ 2,1 bilhões, e minério de ferro, US$ 1,1 bilhão.

Especialistas apontam que, no atual contexto geopolítico, o acordo é visto por países europeus como parte de uma estratégia para diversificar fornecedores frente a tensões envolvendo China e Rússia. Leonardo Munhoz, pesquisador do Centro de Bioeconomia da FGV, destaca o esforço de nações europeias para viabilizar o pacto dentro desse cenário.

Posição dos demais países do Mercosul e limites da integração

A negociação ocorreu em bloco, mas a estrutura resultante é assimétrica, com Brasil concentrando a maior parte do peso econômico, e Argentina, Uruguai e Paraguai em posição secundária.

Em 2024, as exportações brasileiras à UE foram quase cinco vezes maiores que as argentinas, que somaram US$ 8,5 bilhões, o que reduz a capacidade de influência de Buenos Aires no processo, segundo a professora Regiane Bressan, da Unifesp.

O Uruguai tem apresentado crescimento e previsibilidade institucional, com as exportações da UE para o país subindo de US$ 418 milhões para US$ 2,1 bilhões em pouco mais de duas décadas, mas enfrenta limitações técnicas para atender a exigências ambientais europeias.

O Paraguai tem menor peso econômico nas trocas com a UE, com exportações da UE para o país em US$ 994 milhões em 2024, e importações em US$ 416 milhões, no que especialistas descrevem como uma estagnação desde 2018, ainda que o país tenha assumido papel diplomático ao presidir temporariamente o Mercosul em 2026.

Com o acordo, a concentração do protagonismo no Brasil deve moldar a implementação das regras comuns, e ao mesmo tempo exigir ajustes, como modernização de cadeias produtivas, certificação ambiental e investimentos em tecnologia, para que os ganhos sejam equilibrados entre os membros do bloco sul-americano.