Feijão carioquinha, como uma mutação natural e a pesquisa paulista transformaram o grão em 60% do prato dos brasileiros, história e impacto na alimentação
Do campo de Ibirarema às cozinhas do país, o feijão carioquinha virou referência por produzir mais, cozinhar rápido e formar um caldo encorpado e claro
O feijão sempre esteve na base da alimentação do brasileiro, e a chegada do carioquinha marcou uma mudança profunda nos padrões de produção e consumo.
O grão surgiu a partir de uma mutação natural observada em 1963, e sua adoção foi acelerada por um trabalho intenso de pesquisa e divulgação conduzido por instituições paulistas.
Ao longo das décadas seguintes, campanhas, multiplicação de sementes e vantagens culinárias e agronômicas levaram o novo tipo ao prato da maioria das famílias brasileiras.
conforme informação divulgada pelo G1, com base em reportagem da BBC News Brasil e dados da Embrapa
A descoberta e a seleção do novo grão
Em 1963, no município de Ibirarema, um engenheiro agrônomo local, Waldimir Coronado Antunes, notou plantas com grãos listrados em uma lavoura do cultivar chumbinho.
Antunes fez uma seleção massal, percebendo que essas plantas eram mais robustas, menos suscetíveis a doenças e mais produtivas, e separou sementes para testes.
O material foi encaminhado ao Instituto Agronômico, em Campinas, onde o agrônomo Luiz D’Artagnan de Almeida recebeu a responsabilidade pelas avaliações e multiplicação, e o novo tipo acabou catalogado como carioca, número I-38700.
Pesquisa, lançamento e resistência ao preconceito
Os pesquisadores enfrentaram o receio inicial dos consumidores, já que era incomum um feijão com coloração rajada, que poderia parecer estragado.
Para vencer essa barreira, equipes do Instituto Agronômico realizaram testes agronômicos e culinários, e também investiram em divulgação, incluindo distribuição de amostras e folhetos com receitas.
O lançamento oficial ocorreu em 1969, após apresentações públicas desde 1968, e a campanha incluiu degustações em supermercados e o apoio de técnicos como José Norival Augusti.
Vantagens agronômicas e dados de produtividade
Estudos conduzidos pelo Instituto mostraram que o novo cultivar apresentava produtividade superior às variedades tradicionais da época.
Em pesquisa publicada em 1971, constatou-se que o carioquinha produzia em média 1.670 quilos por hectare, enquanto bico-de-ouro e rosinha ficavam na casa dos 1.280 quilos.
Além da maior produtividade, o feijão carioquinha se destacou pela resistência a pragas, adaptação a diferentes solos e climas e pelo fato de cozinhar mais rápido, o que facilitou sua adoção doméstica.
Da produção à mesa, e curiosidades sobre o nome
Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, o feijão carioquinha é consumido por 60% dos brasileiros, reflexo da difusão iniciada em São Paulo e expandida para outras regiões.
O nome carioquinha, como relata a pesquisa, veio da semelhança da coloração do grão com a pelagem de porcos da região, e não tem relação com o Rio de Janeiro, ao contrário de uma lenda comum.
Para pesquisadores como D’Artagnan de Almeida, o lançamento do carioquinha foi um “divisor de águas” na evolução da cultura do feijão no Brasil, promovendo modernização e fortalecendo uma cadeia voltada para o mercado interno.
Hoje, embora o carioquinha seja majoritário, a diversidade de tipos de feijão no país segue viva, com preferência regional por feijão-preto, mulatinho e outros, o que mantém a pluralidade de sabores na mesa dos brasileiros.