Acordo UE-Mercosul: por que o Brasil é o centro da relação com a União Europeia, respondendo por mais de 82% das trocas e moldando cadeias estratégicas
Como o Acordo UE-Mercosul coloca o Brasil no centro das trocas entre blocos, ao fornecer energia e alimentos, e ao mesmo tempo depender de tecnologia e insumos europeus
O novo Acordo UE-Mercosul aproxima cadeias produtivas entre os dois continentes, reduzindo tarifas e estabelecendo regras comuns para bens industriais, agrícolas e investimentos.
A estrutura do tratado revela uma relação assimétrica, em que o Brasil concentra a maior parte do peso econômico do Mercosul e atua como interlocutor central junto à União Europeia.
As informações sobre participação e fluxos comerciais citadas a seguir foram divulgadas pelo g1, conforme informação divulgada pelo g1.
Brasil no centro do bloco, números e desequilíbrios
Segundo dados da Comissão Europeia, o Brasil responde por mais de 82% de todas as importações europeias originadas no Mercosul e por cerca de 79% das exportações do bloco sul-americano destinadas ao velho continente.
Com esse desenho, Argentina, Uruguai e Paraguai tendem a ocupar uma posição secundária na dinâmica do acordo, porque a menor escala de suas trocas reduz sua influência nas negociações.
Em 2024, as exportações brasileiras ao bloco europeu foram quase cinco vezes maiores que as argentinas, que somaram US$ 8,5 bilhões, mostrando a distância entre Brasil e os demais membros do Mercosul.
De quem o Brasil depende
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços mostram que as compras brasileiras junto ao bloco europeu são concentradas, em 2025 três países responderam, juntos, por cerca de 57% dos US$ 50,3 bilhões que o Brasil importou da UE.
Os números são: Alemanha: US$ 14,4 bilhões, 28,6%, França: US$ 7,2 bilhões, 14,3%, Itália: US$ 7,1 bilhões, 14%.
A composição das importações evidencia dependência em bens de maior valor tecnológico, essenciais para serviços públicos e para a indústria brasileira, entre eles: Medicamentos e produtos farmacêuticos: US$ 8,1 bilhões, Autopeças: US$ 2,5 bilhões, Motores e máquinas não elétricas: US$ 2,4 bilhões, Aeronaves: US$ 1,2 bilhão, Equipamentos de medição, verificação e controle: US$ 1,4 bilhão, Compostos químicos: US$ 1,41 bilhão.
José Pimenta, diretor de Comércio Internacional e sócio da BMJ Consultoria, ressalta o efeito direto da retirada das tarifas nos custos, dizendo, “Em alguns casos, o produto chega a pagar 35% ou 40% sobre o valor. Um insumo que custa R$ 100 mil pode chegar a R$ 140 mil na mão do produtor. Com a retirada das tarifas, esse mesmo fertilizante poderia chegar por algo em torno de R$ 100 mil.”
Quem depende do Brasil
Para a União Europeia, o Brasil é fornecedor de insumos básicos e matérias-primas estratégicas, essenciais para cadeias produtivas e para o abastecimento energético e alimentar do continente.
Dos US$ 49,81 bilhões exportados pelo Brasil ao bloco europeu em 2025, 73% tiveram como destino cinco países: Holanda: US$ 11,7 bilhões, 23,6%, Espanha: US$ 8,8 bilhões, 17,7%, Alemanha: US$ 6,5 bilhões, 13,1%, Itália: US$ 5,3 bilhões, 10,8%, Bélgica: US$ 4 bilhões, 8,1%.
Entre os principais produtos exportados pelo Brasil à UE estão Óleo bruto de petróleo: US$ 9,8 bilhões, Café não torrado: US$ 7,1 bilhões, Farelo de soja para alimentação animal: US$ 4 bilhões, Minérios de cobre: US$ 3 bilhões, Celulose: US$ 2,1 bilhões, Minério de ferro: US$ 1,1 bilhão.
Leonardo Munhoz, pesquisador do Centro de Bioeconomia da Fundação Getulio Vargas, avalia que o tratado faz parte da estratégia europeia de diversificação, “Foi visível o esforço desses países para viabilizar o acordo, que é visto como vantajoso para a União Europeia no contexto atual, especialmente pela necessidade de diversificação de mercados.”
Impactos para Argentina, Uruguai e Paraguai
Ao negociar em bloco, o Mercosul preserva interesses comuns, mas a assimetria faz com que os outros membros tenham participação menor na dinâmica do acordo.
A Argentina aparece como segundo parceiro sul-americano na relação com a UE, porém com volume bem inferior ao brasileiro, e o clima político recente também prejudicou sua capacidade de articulação. Regiane Bressan, professora de Relações Internacionais da Unifesp, sintetiza, “Embora o acordo tenha avançado tecnicamente, a relação protocolar levou o Brasil a assumir o protagonismo diplomático, enquanto Buenos Aires perdeu capacidade de articulação”.
O Uruguai tem apresentado crescimento nas trocas com a UE, “As exportações da UE para o país avançaram de US$ 418 milhões para US$ 2,1 bilhões em pouco mais de duas décadas”, mas enfrenta limitações técnicas para atender exigências ambientais do bloco.
O Paraguai, apesar do peso econômico menor, ganhou visibilidade ao assumir a presidência temporária do Mercosul durante a etapa final de ratificação do acordo, papel que pode influenciar prazos e compromissos regionais.
O Acordo UE-Mercosul, ao mesmo tempo em que amplia o comércio, deixa claro que o Brasil será o pivô prático da relação, fornecedor de bens estratégicos e simultaneamente dependente de tecnologia e insumos europeus, situação que vai moldar negociações e políticas industriais nos próximos anos.