Alpinista que deixou namorada morrer no Grossglockner, Áustria, vai a julgamento por negligência na nevasca e pode redefinir responsabilidade no alpinismo

Caso do alpinista que deixou namorada morrer no Grossglockner reúne provas, horários e controvérsias sobre quem era o ‘guia responsável pela excursão’, e sobre decisões na montanha

O julgamento do alpinista que deixou namorada morrer no Grossglockner começou a atrair atenção além da Áustria, provocando debate sobre deveres pessoais e responsabilidades criminais em esportes de montanha.

A acusação diz que o homem, identificado pela mídia austríaca como Thomas P., teria deixado a mulher desprotegida e exausta perto do cume, em uma nevasca, e que, por ter mais experiência, era o “guia responsável pela excursão“.

O caso envolve horários, imagens de webcam, equipamentos e comunicações com a polícia, conforme informação divulgada pelo g1.

O que a promotoria acusa

Os promotores estaduais em Innsbruck afirmam que o alpinista cometeu uma série de erros desde o planejamento até a condução da subida ao Grossglockner, montanha com 3.798 metros de altitude.

A acusação destaca que ele já tinha mais experiência, planejou a rota e, ainda assim, tentou a incursão em condições invernais desafiadoras, com ventos de até 74 quilômetros por hora e temperatura de -8°C, com sensação térmica de -20°C.

Segundo os promotores, ele saiu duas horas atrasado, não levou equipamento de emergência suficiente para um acampamento, e permitiu que a namorada usasse botas de snowboard macias, consideradas inadequadas para o terreno misto em alta altitude.

Os investigadores publicaram uma lista de nove equívocos que atribuíram ao réu, e sustentam que ele não voltou nem pediu socorro a tempo quando a parceira ficou em condição crítica.

Versão da defesa e do réu

O réu nega as acusações e, conforme a matéria, seu advogado Karl Jelinek descreveu a morte da mulher como “um acidente trágico”.

Em declarações citadas pela imprensa, o advogado Kurt Jelinek afirmou que o casal planejou a excursão em conjunto, que ambos se consideravam experientes, estavam bem equipados e “em ótimas condições físicas”.

De acordo com a defesa, o casal teria chegado a um ponto chamado Frühstücksplatz por volta das 13h30 do dia 18 de janeiro, local a partir do qual não haveria mais volta antes do cume, e só prosseguiu porque não se sentia exaurido naquele momento.

Sequência dos eventos, imagens e comunicações

As versões divergem sobre os horários e ações. Câmeras de webcam registraram o casal escalando por volta das 21h do dia 18 de janeiro, e também mostram a figura do homem descendo iluminada por lanternas.

Promotores dizem que o casal ficou preso por volta das 20h50, que um helicóptero sobrevoou a área por volta das 22h50 sem que ele pedisse socorro, e que o homem só ligou para a polícia de montanha às 00h35 do dia 19 de janeiro.

A defesa afirma que, até a noite, ambos ainda se sentiam bem, e que a mulher só passou a apresentar sinais de exaustão de forma repentina, quando já não era mais possível voltar com segurança.

O advogado diz que o réu subiu ao cume e desceu pelo outro lado para buscar ajuda, deixando a mulher cerca de 40 metros abaixo da cruz do cume, enquanto os promotores alegam que ele a deixou por volta das 2h da manhã e só acionou os serviços de emergência por volta das 3h30.

Impacto legal e debate público

Se for condenado, o alpinista que deixou namorada morrer pode pegar até três anos de prisão, segundo a cobertura do caso na mídia.

Especialistas citados pela imprensa alertam que um veredito de culpa poderia representar “uma mudança de paradigma para os esportes de montanha”, ao ampliar a possibilidade de responsabilização criminal por decisões pessoais em ambientes de risco.

O caso já alimenta discussões entre montanhistas, juristas e o público, sobre até que ponto a tomada de risco individual pode ser transformada em crime quando uma expedição termina em tragédia.

As investigações e o julgamento prosseguem, com expectativa por testemunhos, imagens e pelo esclarecimento das comunicações com os serviços de resgate, para definir se houve negligência penal ou um acidente fatal em condições extremas.