Brasileiros que largaram carreira para viver de faxina em Londres, enfrentando informalidade, medo de deportação e oportunidades em um setor que fatura bilhões

Relatos detalham por que brasileiros decidem trabalhar como cleaners em Londres, a rotina de medo e as estatísticas do Home Office e do setor de limpeza no Reino Unido

Viver sem visto regular no Reino Unido levou muitos brasileiros a buscar empregos informais na limpeza, por serem trabalhos acessíveis e com renda superior à média no Brasil.

O dia a dia, contudo, mistura ganhos e insegurança, com relatos de medo constante de fiscalização, deportação e exploração por empregadores.

As informações a seguir reúnem depoimentos, dados sobre fiscalização e números do mercado de limpeza, conforme informação divulgada pelo g1.

Viver com medo, ganhar mais, aceitar a informalidade

Muitos dos brasileiros que migraram para Londres e passaram a trabalhar como cleaners relatam que a decisão veio da falta de oportunidades no Brasil, e da possibilidade de receber um valor mais alto por hora.

Fabiana, que concluiu o ensino médio, diz que “Vim durante a pandemia, quando as regras e leis de imigração ficaram ainda mais complicadas. Além disso, assistência jurídica é cara, e priorizo ajudar minha família no Brasil com o dinheiro que ganho”.

Ela conta que “A imigração já bateu na minha porta quando eu não estava. Já fui parada pela polícia e precisei fugir. Vivo com medo, em uma ansiedade constante, em um estado de vigilância permanente”.

Wagner, formado em oceanografia, resume a rotina de muitos, “Vivo em alerta o tempo todo, com dinheiro de emergência na conta e um contato para arrumar minhas malas caso eu seja deportado”.

Esses relatos mostram por que brasileiros que largaram carreira para viver de faxina muitas vezes evitam reclamar de condições ou salários, por receio de denúncia e perda do trabalho.

O papel do Home Office e regras de visto

O Home Office, órgão responsável pela imigração no Reino Unido, afirma que o tempo de processamento para um visto de trabalho padrão e não complexo é de “apenas 15 dias úteis”.

O órgão explica que o visto do tipo skilled worker exige oferta de um empregador aprovado e uma previsão de salário anual de pelo menos 41,7 mil libras (R$ 339,4 mil), ou o salário-padrão para a ocupação, o que for maior.

O Home Office acrescenta que “Os requisitos salariais podem ser reduzidos por meio de pontos negociáveis ​​para um mínimo de 30.960 libras [R$ 223,1 mil) por ano”. O órgão também informa que candidatos a esse visto podem solicitar a entrada de familiares e, após cinco anos, pedir residência permanente no Reino Unido.

O Home Office pede ainda que qualquer pessoa que “acredite ter testemunhado um crime relacionado à imigração” faça uma denúncia às autoridades, e alerta que a fiscalização contra o trabalho ilegal aumentará ainda mais em 2026.

Setor de limpeza, faturamento e precarização

O setor de limpeza no Reino Unido tem peso econômico relevante, e o crescimento recente do mercado tem relação com terceirização e formas precárias de contratação.

Segundo dados do British Cleaning Council, o faturamento do mercado de limpeza, higiene e resíduos do Reino Unido atingiu 66,9 bilhões de libras (cerca de R$ 482 bilhões) em 2022, um crescimento de 10,2% em 12 meses.

O setor emprega 1,49 milhão de pessoas, cerca de 5% da força de trabalho britânica, e na capital, 60% dos trabalhadores da limpeza nasceram fora do Reino Unido, e 40% são britânicos.

Pesquisadores e entrevistados apontam formas de pagamento em dinheiro, falta de contrato formal e dispensa sem aviso, fatores que tornam trabalhadores vulneráveis ao roubo de salários e à exploração. Fabiana conta ter ganhado 9,50 libras por hora em um emprego encontrado no Facebook, valor abaixo do comum, com pagamento a cada 15 dias, jornadas longas e cansaço extremo.

Fiscalização, prisões e retornos voluntários

O governo britânico aumentou operações de fiscalização contra trabalho irregular. Entre julho de 2024 e junho de 2025, o Home Office realizou 10.031 operações de fiscalização, um aumento de 48% em relação ao ano anterior.

No mesmo período, foram registradas 7.130 prisões de imigrantes suspeitos de trabalho ilegal, 51% a mais que no ano anterior, com Londres concentrando 1.786 prisões. O governo aplicou 2.105 multas a empregadores de pessoas em situação irregular.

Dados oficiais mostram que 4.810 brasileiros retornaram voluntariamente ao país no período de um ano, um aumento de 49% em relação a 2024. O programa de retorno voluntário oferece até 3 mil libras para pessoas em situação migratória irregular que aceitem deixar o Reino Unido, e os brasileiros representaram 18% dos 26.761 retornos voluntários realizados entre julho de 2024 e junho de 2025.

Segundo o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, vivem hoje no Reino Unido 230 mil brasileiros, sendo 190 mil na área do Consulado-Geral de Londres, o que torna a comunidade brasileira uma das maiores fora do Brasil.

As histórias de quem trocou formação acadêmica por emprego na limpeza, seja por necessidade ou busca de renda, mostram um equilíbrio frágil entre ganhos financeiros e riscos legais, físicos e psicológicos. A situação destaca a importância de informação, apoio consular e caminhos de regularização para quem busca estabilidade fora do Brasil.