Como Milei pode negociar com a China sem desagradar a Trump, viagem a Pequim, swap de US$ 5 bilhões, lítio e o dilema do alinhamento com os EUA
Milei avalia manter laços comerciais e investimentos chineses, enquanto fortalece o alinhamento com Trump e enfrenta pressões da Doutrina Donroe e exigências geopolíticas
O governo argentino enfrenta um dilema de política externa, entre preservar a relação econômica com a China e sustentar um alinhamento estratégico com os Estados Unidos, apoiador decisivo nas finanças de Buenos Aires.
A tensão voltou ao centro do debate depois que o presidente declarou, no início de janeiro, que pretende viajar à China ainda este ano, em meio a sinais claros de aproximação com Washington sob a administração Trump.
O impasse envolve negócios, segurança e credibilidade política do governo, em um cenário em que a China é parceira comercial crucial e os EUA promovem uma releitura da Doutrina Monroe na região.
conforme informação divulgada pelo g1
Por que a China é decisiva para a Argentina
A China é, na prática, insubstituível para a economia argentina, por causa da forte complementaridade entre os dois países, e isso se reflete nas cifras do comércio exterior.
Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos, o comércio com Pequim representou 23,7% das importações argentinas e 11,3% das exportações no ano passado, e 70% das exportações argentinas para a China em 2025 foram de soja, carne bovina e lítio, o que evidencia a dependência setorial.
Além disso, a relação se aprofundou com a renovação, em 2024 e 2025, da parte ativa do acordo de swap cambial com a China, no valor equivalente a US$ 5 bilhões (R$ 26 bilhões), instrumento importante para reforçar reservas e estabilizar o câmbio, objetivo central do governo Milei.
O custo político do alinhamento com os EUA
Ao mesmo tempo, Milei mantém um alinhamento muito claro com os Estados Unidos, que no governo Trump busca reduzir a presença chinesa nas Américas e reforçar liderança regional, através do que foi apelidado de Doutrina Donroe.
O apoio americano também foi material: em outubro, Milei recebeu uma linha de ajuda financeira de 20 bilhões de dólares (107,6 bilhões de reais, na cotação da época), um endosso relevante em meio a uma crise política e cambial antes das eleições legislativas.
Autoridades dos EUA repetem que não querem ampliar influência chinesa em países estratégicos, com declarações como a do secretário do Tesouro, Scott Bessent, “Não queremos outro Estado falido ou liderado pela China na América Latina”, o que aumenta a pressão sobre Buenos Aires.
Como Milei tenta separar economia e geopolítica
Milei defende que é possível manter a relação econômica com a China sem conflitar com o alinhamento geopolítico com os EUA.
Em Davos, ele afirmou, “a China é uma grande parceira comercial”, que oferece “muitas oportunidades para expandir mercados”, e que isso “não entra em conflito” com sua aproximação a Washington, acrescentando, “Governo para 47,5 milhões de argentinos e tomo as decisões que melhor beneficiam os argentinos”, e, “Quero uma economia aberta”.
Analistas, no entanto, apontam que separar comércio e geopolítica pode ser difícil se Washington começar a condicionar não só segurança e ajuda, mas também relações comerciais e investimentos.
Riscos, oportunidades e cenários futuros
Além do swap e dos fluxos comerciais, a presença chinesa se manifesta em investimentos em energia, lítio e infraestrutura, e na entrada massiva de produtos de consumo, com crescimento das importações “door to door” em 274,2% em 2025, segundo dados oficiais.
Exemplos práticos incluem a chegada de cerca de 5 mil carros elétricos da marca chinesa BYD em janeiro, e o interesse por Vaca Muerta, a grande reserva de hidrocarbonetos, onde autoridades americanas e argentinas têm discutido parcerias e visitas técnicas.
Para especialistas como Patricio Giusto, diretor do Observatório Sino-Argentino, o desafio é saber se Milei conseguirá sustentar a separação entre laços econômicos com a China e o alinhamento estratégico com os EUA, sobretudo se impostos comerciais ou condições políticas forem colocadas por Washington, e, segundo Florencia Rubiolo, diretora do Insight 21, a Argentina é um país-chave na busca de legitimidade de liderança que Trump conduz.
No curto prazo, o governo tende a adotar pragmatismo, preservando instrumentos financeiros e mercados, ao mesmo tempo em que cultiva apoio político e militar americano, mas o cenário de médio prazo dependerá de como Trump e Pequim recalibrarem suas demandas na região.