Como o acordo UE-Mercosul deve afetar o bolso dos brasileiros, redução de tarifas em carnes, etanol, vinhos, medicamentos, carros, máquinas e exportações
O acordo UE-Mercosul promete mudar o preço de itens do dia a dia e a dinâmica do agronegócio e da indústria brasileira, com impacto gradual nos custos
O tratado entre União Europeia e Mercosul pode deixar vinhos, queijos, chocolates e outros produtos europeus mais acessíveis no Brasil, ao mesmo tempo em que amplia as portas para exportadores nacionais na Europa.
Para o consumidor, as mudanças mais visíveis devem ocorrer ao longo de anos, com a eliminação ou redução de tarifas sobre importações e exportações, e com efeitos diferentes por setor.
Para empresas e produtores, o acordo traz acesso a tecnologias e insumos europeus mais baratos, e exige adaptação para competir e aproveitar as novas oportunidades do comércio global,
conforme informação divulgada pelo g1
O que muda na prateleira e no posto
Uma das alterações mais imediatas para o consumidor é a maior presença de produtos tradicionais da Europa no mercado brasileiro, com tendência de queda nos preços de itens como vinhos e queijos, e a chegada de marcas premium. A expectativa se fundamenta na proposta do acordo de redução ou eliminação gradual de tarifas de importação e exportação, que chegam a mais de 90% do comércio total entre os blocos.
No caso dos vinhos, a Europa concentra grandes produtores, como Itália, França e Espanha, o que pode tornar rótulos de boa qualidade mais competitivos aqui. Carros importados, hoje submetidos a taxação de 35%, poderão ter essa alíquota zerada em até 15 anos, o que tende a baratear esses veículos no longo prazo, mesmo que a queda seja gradual por conta da cadeia global de componentes.
Medicamentos e produtos farmacêuticos, inclusive de uso veterinário, que são “os principais itens importados da UE pelo Brasil, com mais de 8% do total”, também devem sentir os efeitos do acordo, com possíveis reduções de preço ao consumidor e para instituições de saúde.
Impacto nos custos industriais e no agronegócio
O acordo abre espaço para que empresas brasileiras comprem máquinas, equipamentos e insumos europeus por preços mais baixos, o que pode reduzir custos de produção e estimular investimentos em modernização do campo e da indústria. Isso inclui fertilizantes, implementos agrícolas e equipamentos que hoje encarecem a produção.
Ao mesmo tempo, o Brasil terá maior acesso ao mercado europeu para produtos como calçados e frutas. Segundo a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, o tratado cria uma rede de comércio avaliada em US$ 22 trilhões (R$ 118,4 trilhões), com potencial de ampliar as exportações brasileiras em US$ 7 bilhões (R$ 37,7 bilhões) adicionais.
Algumas tarifas começam a cair imediatamente para certos produtos, por exemplo, a taxação de 14% sobre a uva será eliminada assim que o acordo entrar em vigor, enquanto calçados, hoje sujeitos a tarifas de 3% a 7% na UE, terão essas taxas zeradas em até quatro anos.
Para quem ganha e para quem precisa se adaptar
Consumidores que buscam importados europeus e empresas que dependem de insumos da UE tendem a ganhar com preços mais competitivos. Setores exportadores, como frutas e calçados, também podem ampliar vendas para um mercado de 450 milhões de europeus.
Por outro lado, indústrias e produtores que enfrentam concorrência direta de bens europeus terão de se adaptar, melhorar produtividade e buscar nichos de mercado. A modernização e investimentos em tecnologia podem ser determinantes para manter a competitividade.
Projeções econômicas e cenário político
Estimativas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada indicam que o Brasil deve ser o principal beneficiado pelo acordo, e que, até 2040, a assinatura poderia elevar o Produto Interno Bruto (PIB) nacional em 0,46%, crescimento superior ao projetado para a União Europeia e para os demais países do Mercosul.
Em 2020, as exportações do Brasil para o bloco europeu alcançaram US$ 49,8 bilhões (R$ 267,9 bilhões), enquanto a UE exportou US$ 50,3 bilhões (R$ 270,6 bilhões) para o Brasil. O acordo busca reduzir essas assimetrias e aproveitar o mercado conjunto de cerca de 720 milhões de consumidores, equivalente a cerca de 25% do PIB global.
Na prática, a queda de preços será mais rápida para produtos simples e marcada por prazos longos para itens complexos, como automóveis, pela dependência de uma cadeia global de componentes. Ainda assim, o acordo deve provocar mudanças relevantes no bolso do consumidor brasileiro, nas estratégias das empresas e na estrutura de produção do país.