Crescente demanda por cuidadores de idosos acelera trabalho por aplicativos, amplia renda informal e pressiona por regulamentação, direitos e qualificação

Como a crescente demanda por cuidadores de idosos expande serviços por plataformas digitais, aumenta rendas extras de auxiliares e levanta alertas sobre informalidade, legislação e políticas públicas

Auxiliares de enfermagem e cuidadores de idosos têm encontrado uma fonte de renda extra ao oferecer serviços que vão de acompanhamento em consultas à retirada de medicamentos, normalmente combinados por aplicativos e sem formalização.

Esse trabalho, que hoje atende tanto idosos quanto clientes jovens com necessidades específicas, tem impulsionado ganhos adicionais, mas também suscitado dúvidas sobre direitos trabalhistas e segurança do paciente.

As informações a seguir foram reunidas conforme informação divulgada pela BBC News Brasil.

Renda extra e exemplos na prática

Com formação no cuidado de idosos, Girlaine conta que não é necessário ter um curso como acompanhante de saúde ou em áreas relacionadas à enfermagem, por exemplo.

Ela relata atendimentos que variam de acompanhar consultas e exames a estadias longas em hospitais, com uma lembrança marcante: “Já fiquei mais de mês em uma UTI, próximo da finitude do paciente”.

A auxiliar de enfermagem Edineusa Matos, 40 anos, passou a conciliar um turno fixo de 12 horas com trabalhos esporádicos, e diz, “Como trabalho como auxiliar de enfermagem em um turno de 12 horas e descanso por 36 horas, muitas vezes consigo fazer esses trabalhos à parte”.

Edineusa também relembra dificuldades iniciais, “No começo, eu não sabia como me ‘vender’. É preciso pensar como se projetar na plataforma. Hoje, eu tenho uma avaliação cinco estrelas, mas não foi fácil”.

Ela ganha R$ 2,6 mil por mês como auxiliar de enfermagem, e afirma que a atuação como acompanhante tem, em alguns meses, ultrapassado a renda do emprego formal.

Sobre valores cobrados, Edineusa explica que cobra por diária, com mínimo de quatro horas, “O mínimo é R$ 130 o dia, dependendo do procedimento. Quando há um esforço maior do meu trabalho, pode chegar a R$ 260”.

Riscos da informalidade e critérios legais

O trabalho de cuidador tradicional é previsto na Classificação Brasileira de Ocupações, com categorias como “cuidador de idosos” e “cuidador em saúde”, o que permite contratação com carteira assinada.

No mercado, costuma-se exigir curso de cuidador de idosos e pessoas com carga mínima de 360 horas, e o papel do cuidador engloba observar sintomas, identificar sinais de emergência e acionar ajuda especializada, sem diagnosticar doenças ou receitar medicamentos.

Para a advogada trabalhista Patrícia Schüler Fava, serviços esporádicos, como acompanhar um paciente em exames e consultas, se enquadram como prestação de serviço eventual, sem vínculo empregatício.

Ela adverte, porém, que a situação muda quando a prestação vira rotina, e cita que, “Pela legislação, comparecer à residência pelo menos três vezes por semana, mesmo que por poucas horas, já caracteriza a relação como trabalho doméstico”.

Essa diferença é central para entender os riscos do modelo por aplicativo, em que contratação informal e pagamento por diária podem mascarar vínculos que a lei reconhece como trabalho.

Fatores demográficos que aumentam a demanda

A maior longevidade e a queda da fecundidade ajudam a explicar a expansão da procura por cuidadores, segundo especialistas ouvidos pela reportagem.

A médica Roberta França observa que, “Há 30 ou 40 anos, era comum ver babás em pracinhas, mas era raro encontrar cuidadores de idosos. Hoje, em 2025, acontece o contrário”.

O demógrafo Márcio Minamiguchi, do IBGE, lembra que a geração atual de cerca de 80 anos tende a demandar mais cuidados por ter menos filhos e redes familiares reduzidas, abrindo espaço para profissionais e instituições de longa permanência.

Minamiguchi destaca que essas transformações são rápidas e profundas, “São mudanças rápidas e profundas, que tendem a expandir a oferta desses serviços, mas que também enfrenta o desafio da disponibilidade de mão de obra”.

Políticas públicas, desigualdade e desafios de implementação

A Política Nacional do Cuidado foi proposta pelo governo federal, aprovada pelo Congresso e sancionada no final de 2024, com objetivo de reconhecer o cuidado como direito e distribuir responsabilidades entre Estado, famílias, sociedade e setor privado.

Para muitos especialistas, no entanto, a norma ainda depende de regulamentação, orçamento e implementação concreta para mudar a rotina de famílias que cuidam de idosos sem apoio.

A antropóloga Valquíria Renk ressalta que, sem condições financeiras, o cuidado recai sobre familiares, geralmente mulheres, sem remuneração, enquanto famílias com maior poder aquisitivo formam equipes multidisciplinares, com custos que nem sempre são cobertos pelo sistema público.

O cenário combina crescimento da demanda, aumento da oferta por plataformas e necessidade urgente de qualificação, fiscalização e formas de contratação que garantam direitos, proteção do trabalhador e segurança do paciente.

Palavra-chave: crescente demanda por cuidadores de idosos aparece ao longo do texto como elemento central para entender transformações no trabalho, nas rendas e nas políticas públicas.