Crise política na França após acordo UE-Mercosul, RN e LFI apresentam moções contra o primeiro-ministro e desafiam Macron antes de 2027
Acordo UE-Mercosul aprovado pela Comissão Europeia intensifica pressão sobre o governo Macron, com partidos da extrema esquerda e direita buscando derrubar o primeiro-ministro e mobilizar eleitores rurais
Partidos de oposição apresentaram moções de desconfiança contra o primeiro-ministro Sébastien Lecornu, aliado do presidente Emmanuel Macron, após a aprovação do acordo UE-Mercosul pela Comissão Europeia.
As iniciativas partem da extrema esquerda, França Insubmissa, e da extrema direita, Reunião Nacional, que querem forçar uma crise política e capitalizar o descontentamento rural com o pacto comercial.
Embora seja improvável que as moções obtenham votos suficientes para derrubar o governo, o episódio expõe a fragilidade do executivo a pouco mais de um ano das eleições presidenciais, e complica a tramitação do orçamento de 2026, em um Parlamento sem maioria governista, conforme informação divulgada pelo g1.
Por que a oposição age agora
A LFI apresentou a moção na manhã de sexta-feira, e a RN anunciou que também apresentaria uma moção em Bruxelas, com o objetivo de transformar o tema em munição eleitoral. A tensão decorre do entendimento de que o acordo UE-Mercosul pode favorecer importações agrícolas mais baratas, pressionando produtores franceses.
O presidente do RN, Jordan Bardella, disse que o voto de Macron contra o acordo foi mera postura, equivalendo a “uma traição aos agricultores franceses”.
Probabilidade de sucesso e avaliação de analistas
Fontes e analistas consultados apontam que “As moções têm pouca chance de serem aprovadas”, frase atribuída a Stewart Chau, do Verian Group, citada pela reportagem.
Mesmo sem hipótese prática de derrubada imediata, o movimento pode fortalecer a narrativa da RN e aumentar seu apelo no interior rural, cenário que pode influenciar as eleições de 2027.
O conteúdo do acordo e as preocupações agrícolas
Os Estados-membros da UE deram sinal verde provisório ao pacto, que seria o maior acordo de livre comércio já negociado, e que levou mais de 25 anos para ser elaborado.
A França votou contra o acordo UE-Mercosul, juntando-se à Polónia, Hungria, Irlanda e Áustria, mas sem alcançar o bloqueio por maioria qualificada. Os opositores afirmam que o pacto aumentará importações de carne bovina, aves e açúcar, prejudicando agricultores locais.
Ao mesmo tempo, o governo obteve de Bruxelas concessões para proteger setores sensíveis, e há beneficiários industriais do acordo, como produtores de vinho, queijo e leite, além de parte dos pecuaristas.
Reações oficiais e próximos passos
Mathilde Panot, da LFI, afirmou que a França foi “humilhada” por Bruxelas e no cenário mundial. Já Lecornu publicou que “Apresentar uma moção de censura neste contexto… é optar por enfraquecer a voz da França em vez de demonstrar unidade nacional em defesa da nossa agricultura”.
O acordo precisa ser ratificado pelo Parlamento Europeu depois da assinatura pela Comissão, e a disputa política interna agora pode definir o tom do debate público e eleitoral nos próximos meses.