El Helicoide, de ‘maior centro de tortura da América Latina’ a complexo cultural em Caracas, anistia geral, Delcy Rodríguez e a disputa por memória e justiça

Transformação anunciada por Delcy Rodríguez prevê ‘centro esportivo, social, cultural e comercial’, após anistia geral que abrange os 27 anos dos governos chavistas

O icônico edifício conhecido como El Helicoide em Caracas inicia uma transição que mistura reabilitação urbana, política e memória histórica.

A presidente interina Delcy Rodríguez anunciou a conversão do prédio em um espaço de lazer e comércio, enquanto familiares de detidos reagiram nas portas do local.

A mudança ocorre após a promulgação de uma anistia ampla que, segundo autoridades, alcança duas décadas e sete anos de governos chavistas, e levanta questionamentos sobre verdade e reparação.

conforme informação divulgada pelo g1

História do projeto e sonho interrompido

O El Helicoide foi concebido como um símbolo de modernidade, e foi construído na década de 1950 como um centro comercial piramidal, com um conceito pioneiro de ‘shopping drive-thru’.

O projeto, idealizado em 1956 durante a ditadura de Marcos Pérez Jiménez, previa hotel cinco-estrelas, heliporto e rampas helicoidais para que visitantes chegassem de carro às lojas.

O conceito chegou a ser exibido no Museu de Arte Moderna de Nova York, mas a obra nunca foi inaugurada como planejado e ficou abandonada por décadas.

De ícone arquitetônico a símbolo de violência

A trajetória do prédio mudou em 1986, quando a polícia política, Disip, ocupou o local, e o transformou em uma prisão.

Para muitos venezuelanos, a palavra ‘Helicoide’ é ‘sinônimo de muita tristeza e de muitas torturas’, frase que sintetiza o impacto social do local para famílias e sobreviventes.

Víctor Navarro, ex-detento e diretor da ONG Vozes da Memória, qualificou o local como o ‘maior centro de tortura da América Latina’.

Navarro relatou ter sido vítima e testemunha de abusos, e disse, ‘presenciei e, ao mesmo tempo, fui vítima de tortura. Colocaram uma arma na minha boca, carregada, destravada (…), batiam em mim’.

Denúncias sobre métodos de tortura incluem asfixia com sacos plásticos, espancamentos com tacos e o uso de correntes em várias partes do corpo.

Investigações internacionais e números citados

A situação prisional chamou atenção externa, e o Tribunal Penal Internacional, TPI, investiga possíveis crimes contra a humanidade cometidos no Helicoide e em outras unidades.

Organismos da ONU também denunciaram detenções arbitrárias e desaparecimentos forçados, acusações que foram refutadas por autoridades venezuelanas.

Analistas dos direitos humanos, como a ONG Foro Penal, estimam que a Venezuela tenha ao menos 711 presos, dezenas deles no Helicoide.

Revitalização, reações e o pedido por memória

A presidente interina Delcy Rodríguez confirmou que o prédio será convertido em um ‘centro esportivo, social, cultural e comercial’, uma proposta de uso público que muda radicalmente a função do edifício.

Após o anúncio, familiares de presos políticos se reuniram do lado de fora do centro de reclusão aos gritos de ‘liberdade’, reportou a agência AFP.

Defensores dos direitos humanos pedem que a transformação inclua um centro de memória, para que os crimes e as vítimas não sejam esquecidos, e para que haja garantias de verdade e responsabilidade.

Especialistas, ativistas e famílias alertam que a recuperação do edifício precisa vir acompanhada de transparência sobre o passado, acompanhamento das investigações internacionais e medidas de reparação para as vítimas.

O futuro do El Helicoide será visto como um teste para a capacidade de conciliar reconversão urbana, justiça de transição e memória coletiva na Venezuela.