El Helicoide, de shopping inacabado a centro de tortura e agora prometido como complexo cultural e esportivo na Venezuela após anistia geral
Anistia geral e decisão do governo para transformar o El Helicoide em um centro esportivo, social, cultural e comercial marcam nova etapa, em meio a pedidos por verdade e memória
Três décadas após a ocupação por órgãos de segurança, as mãos dos venezuelanos ainda carregam as marcas da história do edifício, que passou de projeto de luxo a prisão política.
O anúncio oficial de conversão reacendeu esperanças de libertação imediata para alguns familiares, e também levantou demandas por reparação e memória para as vítimas.
As informações sobre a mudança e o contexto do prédio foram divulgadas à imprensa, conforme informação divulgada pelo g1.
Origem e abandono, o sonho do shopping drive-thru
O edifício foi concebido na década de 1950 como símbolo da modernidade venezuelana, projeto idealizado em 1956 para abrigar um shopping piramidal com passagens helicoidais, hotel cinco estrelas e até heliporto.
A proposta incluía um conceito de “shopping drive-thru”, em que visitantes chegariam de carro até as lojas, ideia que chegou a ser mostrada no Museu de Arte Moderna de Nova York, mas nunca foi inaugurada como previsto.
Durante décadas, a construção ficou incompleta e parcialmente abandonada, até ser ocupada por agências estatais, o que mudou radicalmente seu destino.
Transformação em centro de detenção e denúncias de tortura
Em 1986, a polícia política, então conhecida como Disip, ocupou o prédio e, mais tarde, a sede passou a abrigar órgãos como a Polícia Nacional e o Sebin.
Para muitas pessoas no país, o local deixou de simbolizar futuro e passou a ser lembrado pelo medo, e, segundo relatos coletados pela imprensa, a palavra “Helicoide” é “sinônimo de muita tristeza e de muitas torturas”.
Víctor Navarro, ex-detento e diretor da ONG Vozes da Memória, classificou o local como o “maior centro de tortura da América Latina”, e relatou experiências pessoais, dizendo, “presenciei e, ao mesmo tempo, fui vítima de tortura. Colocaram uma arma na minha boca, carregada, destravada (…), batiam em mim”.
Denúncias detalham métodos como asfixia com sacos plásticos, espancamentos com tacos e uso de correntes, e organizações de direitos humanos documentaram detenções arbitrárias e desaparecimentos forçados no país.
Investigação internacional e números de detidos
A situação no centro prisional e em outras unidades venezuelanas chamou atenção internacional, o que levou o Tribunal Penal Internacional a abrir investigação sobre possíveis crimes contra a humanidade vinculados ao local.
Organizações locais estimam que existam ao menos 711 presos políticos no país, dezenas deles detidos no edifício, segundo dados citados por organizações como o Foro Penal, em reportagens sobre o tema.
As autoridades venezuelanas sempre negaram as acusações, e em momentos anteriores defenderam o prédio como referência moral, posição que agora confronta o anúncio de transformação do espaço.
Anúncio da anistia, reações e a proposta de um centro de memória
Com a queda do governo anterior e a declaração de uma anistia geral que abrange os 27 anos dos governos chavistas, a presidente interina Delcy Rodríguez confirmou a conversão do local em um “centro esportivo, social, cultural e comercial”.
Após a notícia, familiares de presos políticos se reuniram do lado de fora do centro de reclusão aos gritos de “liberdade”, segundo agências de notícia, e alguns prisioneiros podem ser beneficiados pela anistia e pelo processo de transição.
Ativistas e defensores dos direitos humanos pedem que, além de lazer e comércio, o espaço seja reservado como um centro de memória, para que o horror cometido nas últimas décadas não seja esquecido nem repetido, proposta que foi destacada em declarações à imprensa.
Para parte da sociedade, o fechamento do local é visto como um alívio, e, nas ruas de Caracas, vozes de familiares pedem garantias de investigação, verdade e reparação, enquanto especialistas alertam para a necessidade de preservar evidências e ouvir vítimas.