Europa contrata menos e acende alerta sobre o futuro do trabalho, IA e cortes na indústria pressionam mercado e elevam incerteza na zona do euro

Crescimento do emprego da zona do euro deve cair para 0,6% em 2026, surge a ‘Grande Hesitação’ e trabalhadores temem que a IA transforme o futuro do trabalho

Nos últimos anos, a vantagem momentânea dos trabalhadores após a pandemia cedeu lugar a mais cautela, com menos vagas e clima econômico mais difícil.

Setores industriais sofrem perdas, e políticas de migração que ajudaram a sustentar a oferta de mão de obra estão se estabilizando ou diminuindo.

No conjunto, o cenário alimenta dúvidas sobre o futuro do trabalho, a disposição de mudar de emprego e o papel da inteligência artificial no mercado, conforme informação divulgada pelo g1.

Da “Grande Demissão” à “Grande Hesitação”

Durante e após a pandemia, muitos trabalhadores aproveitaram programas de apoio e trabalho remoto para buscar melhores condições, o que alimentou a chamada “Grande Demissão”.

Pesquisa de 2022 citada na matéria mostrava que um terço dos trabalhadores europeus considerava deixar o emprego em três a seis meses, um número que Angelika Reich, consultora de liderança da Spencer Stuart, chamou de “um número impressionante para uma região com uma rotatividade [de pessoal] tradicionalmente baixa”.

Agora, com menos vagas abertas e incertezas econômicas, empresas e profissionais adotam a chamada “Grande Hesitação” e práticas como o “career cushioning”, preparando um plano B discreto contra instabilidades.

Números que explicam a desaceleração

O Banco Central Europeu projeta que o mercado de trabalho da zona do euro, composto por 21 países, deve crescer a 0,6% em 2026, uma desaceleração frente aos 0,7% previstos para 2025, o que significa menos contratações.

Cada diferença de 0,1 ponto percentual representa cerca de 163 mil novos empregos a menos. Há apenas três anos, a zona do euro criou cerca de 2,76 milhões de novos empregos, quando crescia a uma taxa de 1,7%.

Além disso, a migração líquida, que ajudou a aliviar a escassez de mão de obra, está se estabilizando ou diminuindo, reduzindo um importante impulso ao emprego.

Pressão na Alemanha e riscos por setor

A Alemanha aparece como um sinal de alerta, com, segundo o think tank IW, “mais de uma em cada três empresas planeja cortar empregos este ano”.

O enfraquecimento industrial afetou especialmente automotivo, máquinas, metalurgia e têxtil, com mais de 120 mil postos eliminados por custos mais altos de energia, fraca demanda por exportações e concorrência global.

Projeções apontam ainda para aumento do desemprego em alguns países, com o Banco da França esperando que a taxa suba para 7,8%, enquanto no Reino Unido dois terços dos economistas consultados pelo The Times acreditam que o desemprego pode subir para até 5,5%, ante os atuais 5,1%.

Na Polônia, a taxa chegou a 5,6% em novembro, ante 5% um ano antes, e Romênia e República Tcheca registram aumentos semelhantes.

Inteligência artificial e o futuro do trabalho

A adoção de IA na Europa tem sido mais lenta do que nos Estados Unidos e China, por causa de investimentos menores e regras mais rígidas, mas os temores sobre automação crescem.

Um estudo da EY apontou que um quarto dos trabalhadores europeus teme que a IA coloque seus empregos em risco, e que 74% acreditam que as empresas terão “um quadro de funcionários menor” por causa da tecnologia.

O Instituto de Pesquisa de Emprego, IAB, projetou que 1,6 milhão de empregos na Alemanha podem ser remodelados ou perdidos para a IA até 2040, e a Agência Federal do Trabalho prevê que cargos altamente qualificados serão desproporcionalmente afetados, embora o setor de tecnologia possa criar cerca de 110 mil novas vagas.

Especialistas divergem sobre o impacto final, entre visões que falam em redistribuição de tarefas e outras que alertam para um potencial “precariado da IA” que afetaria sentido de propósito e identidade de grupos inteiros.

Focos de demanda e saídas possíveis

Mesmo com desaceleração geral, ainda há forte procura por profissionais em áreas específicas, como varejo, saúde, logística e engenharia, segundo especialistas citados.

Países como Espanha, Luxemburgo, Irlanda, Croácia, Portugal e Grécia devem registrar crescimento do emprego, impulsionados por fatores locais, por exemplo, o boom do turismo na Espanha.

Para enfrentar o desafio do futuro do trabalho, empresas, governos e trabalhadores terão de investir em requalificação, políticas ativas de emprego e regras claras sobre a adoção da IA, para que a transformação tecnológica gere oportunidades e não apenas cortes.